
Conta-se que numa pequena cidade do interior começaram a acontecer coisas. Coisas difíceis de explicar. Malignas, para ser exato. Roubos, furtos e outros delitos dos mais diversos tipos aumentavam mês a mês. Ninguém tinha sossego. O mal se infiltrava até entre crianças e adolescentes: brigas, fofocas cruéis. Mas o padre da paróquia, atento ao rebanho, fez uma investigação minuciosa e descobriu a causa: obra do senhor do inferno. Ele havia enviado seu braço direito — um espírito capaz de se incorporar nos humanos e manipular suas vontades. Bastava um toque da pessoa possuída em outra que, no mesmo instante, o espírito mudava de corpo. Por isso, não havia água benta que o afugentasse. Conhecendo bem uma de suas ovelhas — Felisberto, homem fiel à igreja e a Deus — o padre o chamou à sacristia e deu-lhe a missão: acabar com a farra do intruso. Após receber a missão, Felisberto tremeu nas bases. Afinal, era para enfrentar o temido por todos os homens da terra, popularmente conhecido como diabo. Felisberto acendeu velas, ajoelhou-se diante de seu santo protetor. Rezou até altas horas da madrugada, pedindo proteção. Respirou fundo. E, sentindo-se abençoado para aquela missão, ganhou a coragem necessária, como um verdadeiro homem de fé. Capaz de dar a vida em nome de Deus. Assim, munido de apetrechos religiosos e, principalmente, de fé, iniciou a caçada. Mas, para seu desespero, toda vez que localizava um fiel incorporado, o danado saltava para outra vítima. Um simples toque na mão e ele se transportava. Tentou em dezenas de fiéis. Esgotou o arsenal religioso e, frustrado, quase desistiu. Mas ele não era homem de desistir. Seu santo protetor estava com ele. Então teve uma ideia pra lá de extrema: ele mesmo tocaria uma das vítimas e receberia o espírito em seu corpo. Depois fugiria para um chalé abandonado no meio do mato e, em solidão absoluta, acabaria com a festa do maldito. E assim fez. Chegando ao chalé, certo de que não havia ninguém por perto, tirou a própria vida. Acreditava que, com ele, o diabo morreria por não ter para onde escapar. Infelizmente, caro leitor, nos segundos finais de Felisberto, quando deu seu último suspiro, um gato doméstico se aproximou. Deu um miado bizarro e escafedeu-se mundo afora.

