Por ter vivido minha infância em uma cidade do interior, recordo-me que as ruas eram todas de terra batida. Em tempos secos, com a ação do vento e o tráfego de veículos levantavam muita poeira. Quando chovia, suas longas enxurradas causavam lamas e valetas.
Tendo como prioridade, as avenidas do centro da cidade começaram a receber uma pavimentação com paralelepípedos, tidos como blocos de rocha dura no formato retangular. No decorrer do tempo começou a chegar também nos bairros.
Com o empedramento das ruas, vieram também os bueiros no final dos quarteirões para o escoamento das águas da chuva. A poeira e a lama que atingiam os veículos, deram lugar aos solavancos. Acompanhando a evolução, as calçadas de terra batida, demarcadas por guias de concreto começaram também a receber o calçamento.
As calçadas revestidas com pedras portuguesas nos tons claros e escuros, formavam um mosaico que em paralelo com as ruas de paralelepípedos se completavam e harmonizavam. Aos transeuntes, um caminhar mais seguro e limpo para os sapatos.
No tocante as diversões, as crianças passavam o dia todo ao ar livre, brincando nas ruas, calçadas e quintais. Valorizavam a criatividade, o convívio social e o uso de materiais simples, como caixas de papelão, latas e potes, palitos de sorvete, barbante, papéis coloridos, elásticos, botões de roupa, tampinhas, giz de cera, prendedores…
A garotada ocupava o tempo de forma agradável, sem ter a necessidade de brinquedos industrializados. Que a maioria dos pais muitas vezes não tinham condições financeiras para adquiri-los. A diversão consistia em bater bafo para virar figurinhas, soltar pipas em dia de vento, disputar bolas de gude mirando um pequeno buraco na terra, andar sobre latinhas suspensas por barbante, jogar futebol de botão…
Andar de bicicleta, carrinhos de rolimã, jogar bola na rua, soprar bolhas de sabão com canudos do mamoeiro, rolar pneus velhos, soltar barquinhos de papel na enxurrada. Brincar de rodar pião, passar anel, esconde-esconde, queimada, amarelinha, cabo de guerra, dono da rua, pega-pega, balança caixão, bambolê…
Entre outras brincadeiras e algazarras, relembro da correria em busca do vendedor de algodão-doce, pé de moleque, biju, quebra-queixo, balas de coco. Do sorveteiro, bucheiro, padeiro, lixeiro. Da correria apostando corrida, para ver quem chegava primeiro no empório ou quitanda, para comprar alguma coisa a pedido de nossas mães.
Com o passar do tempo surgiu o asfalto, um tipo de concreto betuminoso usinado a quente, para ser usado na pavimentação das ruas e na elaboração das lombadas. Os paralelepípedos foram aos poucos sendo retirados ou encobertos pelo asfalto.
Fomos crescendo e vendo o mundo se modernizando ao nosso redor. Essa mudança na pavimentação das ruas, muitas vezes geraram resistências por parte dos moradores, que valorizavam a identidade cultural dos paralelepípedos. Alguns aceitaram com aprovação, enquanto outros a contragosto, exclamam até hoje – No meu tempo não era assim.
Aos saudosistas um desabafo – Adeus, ruas de paralelepípedos!
Autor:
Carlos R. Ticiano
Articulista e romancista


