A Diversidade Religiosa Brasileira e o Desafio da Construção de uma Sociedade Verdadeiramente Inclusiva

Uma Reflexão sobre os Dados do Censo e a Necessidade de Combater o Racismo Religioso

O Brasil vive hoje um momento importante. Os dados do Censo IBGE 2022 mostram mudanças significativas no cenário religioso do país.

As religiões de matriz africana cresceram de forma notável. Elas triplicaram sua presença, passando de 0,3% em 2010 para 1,0% da população em 2022. Contudo, esses números revelam um paradoxo preocupante.

Os dados socioeconômicos dos praticantes de umbanda e candomblé desafiam estereótipos históricos e revelam um perfil que deveria inspirar orgulho nacional: 25,5% possuem ensino superior completo (segundo maior percentual entre todos os grupos religiosos), apenas 2,4% são analfabetos (muito abaixo da média nacional de 7%), e apresentam alta conectividade digital. Paradoxalmente, são exatamente essas religiões – com seguidores altamente escolarizados e economicamente ativos – que mais sofrem perseguição no país.

Enquanto essas tradições religiosas se fortalecem, elas também sofrem mais violência. Portanto, precisamos entender melhor essa contradição.

A Escalada da Violência Contra as Religiões de Matriz Africana

A intolância religiosa no Brasil não é um fenômeno neutro ou genérico – ela tem cor, origem e alvo específico. Assim sendo, em 2024, as autoridades registraram 3.853 violações motivadas por intolância religiosa, um aumento de mais de 60% em relação a 2023. Além disso, as religiões de matriz africana sofreram a maior parte desses ataques, com a umbanda e o candomblé liderando as estatísticas de violência religiosa.

No Estado do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2015, praticantes de religiões de matrizes africanas sofreram mais de 70% dos 1.014 casos de ofensas, abusos e atos violentos registrados. Semelhantemente, pesquisa revelou que em Pernambuco, 92% das pessoas que professam umbanda, candomblé ou jurema já sofreram racismo religioso, enquanto 74% não se sentem seguras para assumir publicamente sua prática religiosa.

Esses números não representam apenas estatísticas – refletem vidas humanas, famílias destruídas, terreiros incendiados, crianças agredidas nas escolas e lideranças espirituais ameaçadas. Representam, sobretudo, a perpetuação de uma estrutura colonial que nunca foi efetivamente desmantelada em nossa sociedade.

É fundamental compreender que o que acontece contra as religiões afro-brasileiras não é apenas “intolerância religiosa” – um termo que, por sua neutralidade, mascara a natureza estrutural e racial do problema. Trata-se de racismo religioso: um conjunto de condutas agressivas que visam discriminar e excluir pessoas negras e suas tradições espirituais dos espaços públicos e sociais.

O racismo religioso difere da intolerância religiosa porque incorpora uma dimensão racial explícita, atacando não apenas as crenças, mas a própria identidade cultural e ancestral dos povos africanos e seus descendentes. É um mecanismo de poder que busca manter hierarquias sociais estabelecidas historicamente, utilizando o preconceito religioso como ferramenta de dominação racial.

A Constituição Federal de 1988 estabeleceu o Brasil como Estado laico, garantindo a liberdade religiosa como direito fundamental. O artigo 5º, inciso VI, é categórico: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

Entretanto, existe um abismo entre a letra da lei e a realidade vivida. A laicidade brasileira permanece “flexível” demais com algumas religiões e rígida demais com outras. Enquanto símbolos cristãos permanecem em espaços públicos sem questionamento, terreiros enfrentam dificuldades para obter alvará de funcionamento. Enquanto celebrações católicas recebem apoio oficial, manifestações afro-brasileiras são sistematicamente criminalizadas ou ignoradas pelo poder público.

O Exemplo do Rio Grande do Sul

Um dos aspectos mais intrigantes dos dados do Censo 2022 é a liderança do Rio Grande do Sul como estado com maior proporção de praticantes de religiões de matriz africana (3,2% da população). Esta concentração não é acidental: resulta de fatores históricos específicos, incluindo o intenso tráfico de pessoas escravizadas através dos portos gaúchos e, curiosamente, a chegada de colonos luteranos alemães que contribuíram para maior liberdade de culto, diminuindo o monopólio católico.

O exemplo gaúcho demonstra que a diversidade religiosa pode florescer quando há ambiente institucional favorável. A maior festa dedicada a um orixá nas Américas acontece no Rio Grande do Sul – a celebração de Iemanjá na praia do Cassino, que atrai 300 mil pessoas. Isso prova que a convivência respeitosa entre diferentes tradições religiosas não apenas é possível, mas pode se tornar patrimônio cultural e turístico.

O alto nível educacional dos praticantes de religiões afro-brasileiras nos oferece uma lição fundamental: conhecimento e educação são antídotos contra o preconceito. Não por acaso, essas comunidades apresentam as menores taxas de analfabetismo entre todos os grupos religiosos brasileiros.

Isso nos aponta para a necessidade urgente de implementação efetiva da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas. É na educação que podemos formar cidadãos capazes de compreender e respeitar a diversidade religiosa como patrimônio nacional, não como ameaça a ser combatida.

A forma como uma sociedade trata suas minorias religiosas é o verdadeiro teste de sua maturidade democrática. O Brasil não pode se orgulhar de sua democracia enquanto mantiver cidadãos de segunda classe por motivos religiosos. Não podemos celebrar nossa diversidade cultural enquanto permitirmos que tradições centenárias sejam sistematicamente perseguidas.

Os dados do Censo 2022 nos mostram que as religiões de matriz africana não são grupos marginais ou em extinção – são comunidades economicamente ativas, altamente educadas e em crescimento. Sua contribuição para a sociedade brasileira é inestimável, não apenas em termos culturais, mas também sociais e econômicos.

O Brasil está numa encruzilhada. Podemos escolher o caminho da exclusão, da violência e do retrocesso civilizatório, mantendo estruturas coloniais de dominação que envergonham nossa história. Ou podemos escolher o caminho da inclusão, do respeito e da construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, onde a diversidade seja celebrada como riqueza nacional.

A escolha que fizermos hoje determinará que país entregaremos às próximas gerações. Os dados estão aí, claros e incontestáveis: as religiões de matriz africana crescem, somos cidadãos exemplares, e sua contribuição cultural é patrimônio de toda a humanidade.

Resta saber se teremos a coragem moral e política de proteger esse patrimônio, garantindo que todos os brasileiros – independentemente de sua fé – possam viver com dignidade, segurança e respeito em sua própria terra.

O futuro da democracia brasileira passa, inevitavelmente, pelo reconhecimento de que somos uma nação plural, forjada na diversidade, e que nossa grandeza está justamente na capacidade de conviver respeitosamente com nossas diferenças. Dessa forma, devemos construir o Brasil que queremos. Além disso, precisamos honrar o legado que nossos ancestrais sonharam. Afinal, temos a responsabilidade de entregar esse Brasil às nossas crianças.

A diversidade religiosa não é um problema a ser resolvido, mas uma riqueza a ser preservada. Uma sociedade que persegue suas tradições espirituais é uma sociedade que escolhe o empobrecimento cultural e moral. O Brasil merece mais. O Brasil pode mais.

* Pai Lucas de Xangô é Sacerdote e Diretor da FENARC ( Federação Espiritualista Nacional Afro-Religiosa e Cultural),escritor e ativista da valorização das religiões de matriz africana no Rio Grande do Sul.

Pai Lucas de Xangô
Pai Lucas de Xangô
Sacerdote do C.E.U Reino de Xangô & Jurema, Diretor do Departamento da Natureza & Sustentabilidade da FENARC, militante ambiental e defensor das religiões de matriz africana no RS.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol