Os felizes e os tristes

Enquanto o sol se despedia lentamente ontem a noite, estava eu, sentada na varanda com meu avô. Ali, em silêncio, observei que ele precisava falar e ser ouvido. É tão simples, no entanto, tão raro. E lá estávamos: eu escrevendo e ele falando dezenas de vezes a mesma coisa, como se nunca o tivesse dito, coisas do alzheimer. Fiz algumas fotos e continuei escrevendo minhas crônicas. Um ventinho refrescante ali na varanda, sua voz ao lado repetindo cenários e lembrando do tempo em que morou no sul. Havia trabalhado com cana-de-açúcar. Surpreendentemente, ele dizia que, se tivesse no que trabalhar, o faria. Ao questionar, em tom de graça, sua vontade de trabalhar aos setenta e nove anos, ele caiu na risada. Enquanto ouvi sua gragalhada, senti gratidão, por cada vez que riamos diferente da mesma coisa que foi dita.

Se o Alzheimer me escutasse, eu lhe diria com toda convicção: você não vai roubar o riso… Pode roubar as memórias, a caminhada pela manhã, a chamada de vídeo com o irmão, a vitamina às 9h, o banho às 5h, a visita às 16h, o passeio ao shopping, mas o riso, não!

No escuro deste quarto, às cinco e trinta e seis da manhã, acordo grata! Grata porque Deus é bom e nada foge do Seu controle. Sou a bebê que seria doada no hospital, mas acabou sendo adotada por uma família da zona campesina. Os dois fatos são ruins, mas aprendi bastante. Me levaram a trilhar caminhos inimagináveis e a viver uma vida que seria improvável. Aos poucos superei obstáculos e hoje posso garantir ao meu avô— quem me criou — de uma vida digna e confortável.

Abri os olhos nesta manhã e me lembrei do Gil, o rapaz latino-americano que me disse que sua motivação diária é acordar e ter a possibilidade de fazer o melhor possível. Esse é o segredo da vida: a forma como olhamos e nos sentimos diante do que nos acontece. Gil é aquele rapaz que enxerga o copo meio cheio; ele me fez lembrar que também sou assim. As decepções quase me afundaram, mas, como nada foge do controle de Deus, lá estava o Gil para me lembrar a essência.

Esqueci de desligar o despertador. Acordei antes da hora que desejava, mas, diferente de ontem, me sinto agradecida. E isso faz toda a diferença. A louça está suja, a casa por varrer, as roupas para dobrar, o banheiro para lavar e — julgue-me se preferir — tudo é transitório demais para que meu tempo seja apenas para cumprir tarefas domésticas. Gosto do que é eterno. Escrever é eternizar. Agora mesmo, eternizei minha louça por lavar muito mais do que se a tivesse lavado. Entendes? Acho que isso é um belo presente que me dou no Dia Internacional da Mulher. Quem disse que o domingo precisa começar com a casa limpa, quando a alma já amanhece lavada?

Vejo minha vozinha na tela de bloqueio, um sorrisinho leve. São cinco e cinquenta e dois. Ouço os passos do meu avô pelas cerâmicas. Já despertou. Vou ficar aqui mais um pouco. Às 7h preparo sua vitamina e sua aveia com banana. Ouço o chuveiro ligado; hoje o seu banho está sendo às seis e quatro — geralmente é às quatro e meia, no máximo às cinco.

Meu filho está na casa da avó. Devido às suas condições neurológicas, ele está sempre irritado, imitando um Godzilla ou qualquer outro dinossauro. Qualquer coisa que eu peça para ele fazer, ele reclama. A qualquer “não” que receber, virá um Godzilla. Queria que ele sentisse gratidão pela vida, mas ele se sente insatisfeito vinte e quatro horas por dia.

A gratidão deve ser um exercício diário. Preciso encontrar um método de treinar essa habilidade nele. Será que existe? Vou descobrir. Porque a grande diferença entre os felizes e os tristes é o ponto fixo. O ponto fixo do triste é o que lhe causa desânimo; o feliz não tem um ponto fixo de dor, senão também seria um triste. Tudo é transitório. E a alma lavada não teme a louça suja; ela sabe que o eterno mora no intervalo entre o sinal do despertador e o primeiro gole de café.

Monica Graciete
Monica Gracietehttps://mgcronicandoavida.blogspot.com/
Pedagoga, especialista em Educação Inclusiva e em Arte. Educadora por vocação, cronista por essência. Escrevo crônicas existenciais, educacionais e memorialistas. Meus textos falam de questões educacionais e familiares, dos desafios da maternidade atípica e as ironias do dia a dia. Escrevo, porque a vida não basta e a Literatura é um dos melhores lugares para existir.

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