No Brasil, é comum ouvir a melodia reconfortante de que somos um país sem racismo, uma nação de cores e misturas onde a harmonia prevalece. Essa canção, no entanto, é muitas vezes um lamento abafado, um véu sutil que tenta esconder uma realidade bem mais complexa e dolorosa. O racismo, em terras brasileiras, não se manifesta sempre com a violência explícita de outros contextos; ele se aninha nas entrelinhas, nas entonações, nos olhares, nas oportunidades negadas e, sim, nas explosões de ódio que, de tempos em tempos, rasgam o tecido social. Ele está encrustado na sociedade, como uma mancha antiga que se disfarça, esperando apenas a oportunidade para dar as caras de forma desavergonhada. A ideia de que o Brasil é uma “democracia racial” é um mito poderoso, habilmente desconstruído por pensadores como Florestan Fernandes, que já nos alertava sobre a ilusão de uma convivência pacífica que mascarava profundas desigualdades e preconceitos. Essa narrativa, embora sedutora, serve como um escudo para a inação, permitindo que muitos se isentem da responsabilidade de confrontar essa chaga.
A história de Cris Rosa é um espelho brutal dessa realidade. Mulher quilombola, moradora do Quilombo de Boa Esperança, em Areal-RJ, Cris é um farol de força e representatividade. Com formação em Design de Moda e pós-graduação em Produto de Moda, além de licenciatura e pós-graduações em História do Brasil e História Afro-Brasileira, ela é uma intelectual e profissional dedicada, que se orgulha de suas raízes e de sua identidade como costureira. Sua atuação como representante de Areal-RJ na Conferência Nacional de Mulheres em Brasília, em 2025, e sua participação em uma extensão sobre mulheres líderes quilombolas no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, atestam sua liderança e seu compromisso. No entanto, Cris foi alvo de ofensas racistas escancaradas, via internet, que visavam diminuí-la por sua cor, seu corpo, seus cabelos, sua identidade e sua profissão. Palavras que, de tão vis, nem ouso reproduzir aqui, foram lançadas contra ela com a intenção de ferir, de anular, de desumanizar. Este caso é emblemático e, infelizmente, está longe de ser isolado. Independentemente de quaisquer desavenças, rusgas ou antipatias que possam surgir nas interações humanas, nada, absolutamente nada, dá a alguém o direito de diminuir o outro por atributos físicos, especialmente por ser uma mulher negra, como se a negritude fosse um defeito a ser corrigido ou um fardo a ser carregado.
A dor de ser alvo de tal violência é um abismo que se abre na alma, uma ferida que sangra não apenas na pele, mas no espírito, na autoestima, na própria percepção de si. Em conversa com Cris, percebe-se que as ofensas tiveram um efeito que outras pessoas, que não passam por racismo, não conseguem entender em sua totalidade, ainda que as achem um absurdo sem tamanho. Coisas assim atingem o mais profundo do ser, como um raio que fende a terra, restaurando memórias doloridas que vêm desde a infância, ecos de um passado onde a crueldade da sociedade já se manifestava em olhares, em palavras, em exclusões. É a sensação de ter sua humanidade questionada, sua existência diminuída, sua beleza negada, um golpe que reabre cicatrizes antigas e demonstra, com uma clareza cortante, a crueldade que a sociedade ainda pode reservar às pessoas negras. É como se cada ofensa não fosse apenas uma palavra, mas um punhal que se crava em um lugar já marcado, reavivando a ardência de todas as vezes em que a cor da pele foi motivo para a dor. A escritora e filósofa Bell Hooks nos ensina sobre a profundidade dessa dor, ao afirmar que “o racismo é uma forma de terrorismo”. É um terror que busca desestabilizar, desempoderar, silenciar.
Como pessoa branca, jamais poderei compreender a profundidade da dor que Cris Rosa e tantas outras pessoas negras sentiram, sentem e, lamentavelmente, ainda sentirão. Minha condição humana me permite empatizar, tentar imaginar, mas a vivência da dor racial é uma experiência intrínseca àqueles que a sofrem. É uma dor que se acumula através de gerações, que se manifesta em microagressões diárias e em explosões de ódio como a que Cris enfrentou. É cômodo para nós, brancos, não tratar desse assunto, deixar que a discussão e a luta recaiam apenas sobre os ombros dos negros. Mas o racismo não é um problema “deles”; é um problema de todos nós, uma falha estrutural que corrói a base de uma sociedade que se pretende justa e igualitária. A luta contra o racismo exige a voz e a ação de todos, um compromisso inabalável com a desconstrução de preconceitos e a construção de um futuro onde a dignidade humana seja inegociável para cada indivíduo, independentemente da cor de sua pele. Que a história de Cris Rosa não seja apenas um relato de dor, mas um chamado à ação, um lembrete pungente de que o véu da “democracia racial” precisa ser rasgado para que possamos, finalmente, enxergar e curar as feridas abertas do racismo em nosso Brasil.


