BBB 26 e a desumanização travestida de personalidade

O Big Brother Brasil 26, edição atual, não é apenas um jogo de estratégias, mas um experimento social em que o público projeta em cada casa o que imagina que faria no lugar de cada brother. O que se revela, porém, é menos o caráter dos participantes e mais a desconfiança e a desumanização que já habitam o nosso cotidiano. A premiação sistemática de perfis que se valem da belicosidade, do conflito e da grosseria banalizada, como quem peida na cara dos outros, faz questão de ser inconveniente sem pedir desculpas, toma as coisas dos colegas sem autorização ou até coloca ovos podres na água alheia, mostra que nossa tolerância ao desrespeito atingiu níveis perigosos. Essas atitudes, que fora da casa seriam consideradas assédio, humilhação ou simplesmente má educação, passam a ser exibidas, reiteradas e muitas vezes aplaudidas, como se o incômodo fosse, por si só, uma forma de valor.

A torcida costuma dizer que certas participantes “incomodam” porque têm “personalidade forte” ou são “mulheres fortes que colocam posição”. Há, de fato, uma distinção entre ser firme, manter limites, exigir respeito e ser simplesmente insuportável. Colocar posição, em uma luta mais séria, significa dizer não, exigir reconhecimento, não se deixar abusar e recusar papel de submissão, tudo isso em um contexto de igualdade e diálogo. O que vemos, muitas vezes, no BBB 26, é outra coisa: pessoas que fazem questão de ser agressivas, desrespeitosas e desagradáveis, e que ainda assim são descritas como “autênticas”, “sem filtro” ou “corajosas”. A luta identitária das mulheres, que buscam direitos, espaço e reconhecimento, é desvirtuada para servir de escudo a toda forma de incivilidade, como se bastasse ser mulher para que qualquer atitude fosse automaticamente politizada.

Um dos episódios que condensa essa inversão de valores é o momento em que o participante Alberto Cowboy interrompeu a prova da liderança do BBB 26 para prestar socorro ao ator Henri Castelli, que estava no elenco da edição atual e passou mal no provódromo, com uma crise convulsiva. Em vez de aproveitar a oportunidade de se destacar estrategicamente, Alberto suspendeu, por um instante, o foco em si mesmo e assumiu uma postura de cuidado diante de alguém em situação de vulnerabilidade. Foi um gesto simples, direto, humano: tirar o foco da própria disputa para atender a necessidade de outro, sem cálculo, sem expectativa de imagem, sem projetar isso como estratégia sentimental.

E exatamente por isso esse comportamento não foi enaltecido em nenhum momento. Nem pelos apresentadores, nem pela edição, nem pela narrativa construída em torno dos personagens mais rentáveis. Enquanto o público celebra a participante que provoca, humilha, desrespeita e ainda assim “mostra a cara”, o que faz o contrário, alguém que, num momento de tensão extrema, interrompe o próprio benefício para ajudar outra pessoa, é tratado como um detalhe, um incidente, algo que não merece ser transformado em narrativa. O gesto de Alberto Cowboy não virou meme, não gerou debate de “bonzinho estratégico” nem de “falso solidário”; simplesmente passou despercebido, porque não serve à lógica de um espetáculo em que o que importa é quem ofende, quem incomoda, quem ganha ao custo do outro.

Quando o público aplaude alguém porque ela peida na cara dos outros ou porque atrapalha, humilha e ainda assim não se desculpa, está, na verdade, normalizando o que deveria ser visto como violência cotidiana. O espectador que se incomoda com isso é muitas vezes acusado de conservador, machista ou de não ter senso de humor, como se a sensibilidade às agressões menores fosse sinal de fraqueza, e não de um mínimo de humanidade. A desconfiança generalizada, que já descrença em políticos, instituições e, cada vez mais, entre as próprias pessoas, ajuda a criar um ambiente em que a suspeita é vista como realismo e a honestidade, como ingenuidade. Nesse quadro, a ponderação, a moderação e a capacidade de negociar deixam de ser virtudes e passam a ser sinais de fraqueza, quando, na verdade, são justamente o oposto: a capacidade de viver em coletivo sem transformar o outro em inimigo.

O que torna tudo ainda mais distorcido é que muitas pessoas deixam de ver o comportamento em si para enxergar apenas o posicionamento político por trás. Assim, não se vê uma pessoa boa de verdade, mas apenas alguém que é boa para a causa; não se vê uma pessoa ruim de verdade, mas alguém que é ruim para a causa. O que importa não é o respeito, a empatia, a solidariedade ou a lucidez, mas se aquele brother ou aquela sister se alinha, explicitamente ou implicitamente, com o campo político que o espectador defende. O resultado é uma desumanização dupla: de um lado, a pessoa é idealizada porque está do nosso lado, e mesmo atitudes grosseiras ou desrespeitosas são lidas como força de caráter; de outro, qualquer gesto mínimo de quem é considerado adversário é ampliado e interpretado como prova de maldade absoluta, como se fosse impossível que alguém ruim também pudesse ter um gesto honesto e que alguém bom pudesse ser também injusto ou insuportável.

Esse tipo de leitura, baseada quase exclusivamente em preferência política, impede que o público consiga distinguir o que é ético do que é apenas estratégico, o que é compatível com seus valores e o que é apenas conveniente imaginar como compatível. A política, que poderia ser um espaço de debate sobre justiça, dignidade e direitos, passa a funcionar como uma lente deformadora através da qual tudo é visto em preto e branco: ou o outro é um herói da causa, ou é um inimigo a ser eliminado. Nesse cenário, o BBB não apenas amplifica o conflito, mas também o politiza, fazendo com que cada comentário, cada atitude e até cada piada sejam lidos como prova de adesão ou traição a um campo maior. O que se perde, no caminho, é o indivíduo em si: não se vê mais uma pessoa com defeitos, qualidades e contradições, mas apenas um avatar de um time político.

O problema não é o BBB como um programa isolado, mas o espelho que ele oferece da sociedade brasileira: a recusa em ver limites, a desvalorização do respeito e a celebração do conflito como única forma legítima de existência pública. Quando o que mais gera rede, memes e audiência é a humilhação, o sarcasmo cruel e a provocação gratuita, estamos diante de uma cultura que só aprende a olhar o outro como alvo de gozação ou destruição. A luta feminista, em vez de ser usada para reforçar a exigência de convivência digna, acaba explorada para justificar a insensibilidade, como se “ser forte” significasse não se importar com o outro, não se doar, não se incomodar com o que se causa. E, sob o véu da política, a ideia de bondade ou de maldade se dissolve em simpatia ou antipatia ideológica, como se o mundo fosse apenas um grande paredão de votação, onde o que importa não é quem é, mas de que lado se julga que está.

Premiar o que é insuportável, chamando isso de “personalidade forte” ou de “mulher que incomoda”, é um passo adiante na degradação da sociedade brasileira, não porque o entretenimento está ruim, mas porque ele espelha, com exatidão cruel, o que já se tornou aceitável em nossa vida fora da TV. Quando o comportamento é subordinado à posição política, o público perde a capacidade de reconhecer a verdadeira humanidade do outro, e o Brasil se aproxima cada vez mais de um estado em que a única forma de existir é como inimigo ou como herói de um time, nunca como pessoa. O gesto de um Alberto Cowboy, que, na edição atual do BBB 26, suspendeu a própria disputa de liderança para acudir Henri Castelli, deveria, sim, incomodar mais do que todos os peidos na cara, as roubadas de objeto e as grosserias cerimoniosas que ocupam o centro da narrativa. Mas não incomoda, porque incomodar, no mundo construído pelo BBB 26, não significa cuidar, significa ferir.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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