Em países minimamente previsíveis, políticos se preocupam com reformas, contas públicas e políticas de Estado. No Brasil, uma das prioridades recentes orbitou em torno de outra pauta nobre: levantar milhões para produzir um filme sobre Jair Bolsonaro. Não um documentário independente, não uma investigação crítica, mas uma ode cinematográfica devidamente financiada. E é aí que entram as ligações entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro, temperadas por áudios nos quais se fala, sem qualquer pudor, em “milhões” para bancar o projeto.
O roteiro é tão óbvio que quase dispensa diretor. De um lado, um grupo político que construiu sua narrativa na base do “contra tudo isso que está aí”, prometendo moralização, combate à “mamata” e revisão de benefícios. Do outro, empresários e financiadores dispostos a apostar em um produto: a imagem de Bolsonaro transformada em mercadoria audiovisual. Aparentemente, a verdadeira “reconstrução do Brasil” passaria também por uma sala de cinema, com pipoca, refrigerante e, se possível, lavagem de dinheiro.
Segundo reportagens, as conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro incluíam tratativas sobre captar recursos vultosos para viabilizar o filme biográfico do ex-presidente. Em um dos áudios que vieram a público, a naturalidade com que se fala de “milhões” chama a atenção, não pela ousadia, mas pela tranquilidade. No Brasil onde o cidadão comum parcela o gás, a elite política discute milhões como quem fala do orçamento do churrasco de domingo.
Flávio Bolsonaro, aliás, protagonizou um espetáculo à parte. Primeiro, apareceu com a convicção de um ator de novela das nove garantindo que não havia “um centavo” de Daniel Vorcaro no filme sobre o pai, como se tudo não passasse de mais uma injustiça da imprensa perseguidora. Seis horas depois, porém, a realidade bateu à porta com a sutileza de um caminhão sem freio, e o senador teve de se desmentir, admitindo aquilo que antes tratara como ficção. Em tempo recorde, saiu do papel de filho indignado para o de roteirista atrapalhado, enroscado na própria narrativa. É quase poético: quem tanto acusou os outros de enganar o povo acabou desmentido não pela oposição, mas pelo próprio relógio. Se esse é o padrão de coerência nos bastidores do filme, talvez a única parte realmente documental dessa produção seja o making of das contradições.
A ironia é que essa busca por dinheiro para o filme aparece na mesma família política que tratava a Lei Rouanet como sinônimo de corrupção e “teta” cultural. Durante anos, Bolsonaro e seus porta-vozes atacaram artistas, produtores e projetos aprovados em mecanismos de incentivo fiscal. A acusação era sempre a mesma: gente “mamando” em dinheiro público para bancar obra “ideológica”. Agora, de repente, quando se trata de contar a saga heroica do “mito”, a lógica muda. A cultura deixa de ser “mamata” e vira investimento estratégico na narrativa. Importante frisar que estamos aqui tratando de dinheiro que foi “roubado” do BRB.
É claro que, oficialmente, tudo sempre é apresentado como iniciativa privada, dinheiro de empresário, recursos de investidores. Mas, no Brasil, o caminho entre o capital privado “generoso” e o benefício político costuma ser curto, tortuoso e cheio de conivências. Quando um senador articula com um banqueiro o financiamento multimilionário de um filme sobre o próprio pai, não estamos falando de arte neutra. É construção de mito, branding político e tentativa de reescrever a história à luz dos interesses de quem ainda sonha voltar ao poder.
Se o projeto fosse apenas um filme chapa-branca, financiado com dinheiro privado transparente, ainda assim seria questionável do ponto de vista ético, dado o protagonismo político dos envolvidos. Mas o problema é que nada nesse universo é apenas o que parece. A história recente mostra como relações entre empresários e a família Bolsonaro se misturaram a investigações sobre rachadinhas, negócios imobiliários, lojas de chocolate, movimentações atípicas e interlocução com o poder. Nesse contexto, um filme financiado a partir de conversas entre um senador e um banqueiro que era investigado (e agora está preso) deixa de ser “só cinema” e passa a ser mais um capítulo de um enredo de poder e influência.
Há também o componente simbólico. Enquanto escolas públicas lutam por verba básica, hospitais sucateados imploram por estrutura e a cultura independente agoniza, um grupo político discute como levantar “milhões” para erguer um monumento audiovisual à própria biografia. O Brasil real, o da fila do SUS, da falta de merenda, do transporte lotado, continua esperando por atenção. O Brasil do mito, porém, está ocupado demais cuidando da iluminação cênica do próprio legado.
Talvez a parte mais absurda dessa história seja a naturalização. A ideia de que é perfeitamente aceitável que um senador atue, na prática, como produtor executivo da obra que exalta seu pai, articulando com banqueiros e empresários, é tratada quase como algo trivial. Se um diretor de cinema fizesse um filme bajulatório sobre um presidente de esquerda com financiamento articulado nos bastidores por políticos aliados, a gritaria contra “aparelhamento” e “propaganda disfarçada” seria ensurdecedora. Mas como o protagonista é Bolsonaro, o discurso se adapta: agora é “liberdade artística” e “mercado”.
É também revelador que o esforço não seja para produzir um filme que encare criticamente a pandemia, as armas, a relação com milícias digitais ou o desmonte ambiental. Nada disso. A prioridade é uma versão edulcorada do personagem, provavelmente com trilha épica, enquadramentos heroicos e cenas cuidadosamente selecionadas para emocionar a base fiel. A arte, nesse caso, não imita a vida. Ela a higieniza, recorta e vende, em embalagem ideológica.
No fim, o “caso do filme de Bolsonaro” cumpre uma função pedagógica. Ele escancara que o moralismo da família é profundamente seletivo: a mamata dos outros é escândalo, a própria mamata é projeto. A promiscuidade entre política, dinheiro e narrativa não desapareceu; ela apenas mudou de figurino, trocando gabinetes por sets de filmagem e discursos inflamados por roteiros com pretensões épicas.
Quando o filme finalmente estrear – se estrear –, talvez faça sucesso entre os já convertidos, que verão na tela a confirmação de sua fé. O problema é o que não aparece nos créditos finais: as relações de poder, os interesses envolvidos e os milhões que, em um país tão desigual, continuam sempre à disposição para proteger biografias convenientes, jamais para enfrentar a realidade incômoda.
O Brasil não precisa de mais um filme sobre Bolsonaro. Precisa, isso sim, de instituições que se levem a sério, de imprensa vigilante, de Ministério Público atuante e de uma sociedade que aprenda a distinguir arte de propaganda e biografia de peça publicitária. Até lá, seguimos assistindo, de arquibancada, ao épico mais previsível de todos: a eterna tentativa da velha política de transformar poder em espetáculo — e o cidadão em plateia pagante.


