O anúncio da criação de um exame de ordem para a Medicina — a “OAB dos médicos” — tem sido vendido como a salvação da saúde pública brasileira. O argumento é sedutor: em um cenário de explosão de faculdades de qualidade duvidosa, um exame nacional iria filtrar os maus profissionais antes que chegassem aos consultórios. No entanto, uma análise mais fria revela que o remédio pode ter efeitos colaterais piores que a doença.
O Mito da Qualidade por Prova
O primeiro grande equívoco é acreditar que uma prova de múltipla escolha, dissertativa, ou seja lá de que outro modo, garante competência clínica. A advocacia já vive esse dilema há décadas: a OAB não forma advogados; ela forma “especialistas em passar na OAB”. Se o estudante dedica seus últimos anos de curso a decorar macetes de cursinhos preparatórios para vencer uma banca examinadora, quem perde é o paciente. O conhecimento médico real se constrói à beira do leito, no internato e na prática exaustiva, e não preenchendo gabaritos.
A Residência Médica já é o Filtro — e está em Risco
Diferente do Direito, a Medicina possui a Residência Médica, que é — ou deveria ser — o verdadeiro selo de garantia. Se seis anos de graduação e anos de especialização prática não estão sendo suficientes para garantir a segurança do paciente, o problema é estrutural e sistêmico. Adicionar uma “cancelha” burocrática no final do trajeto não resolve a má formação; apenas cria um mercado paralelo de taxas e cursinhos. Além disso, não podemos ignorar o elefante na sala: o tráfico de influência. Se processos seletivos de residência e conselhos de classe já sofrem com o peso de apadrinhamentos, o que impede que um novo Exame de Ordem se torne mais um balcão de negócios e “acertos” políticos?
Um Novo “Cabide de Empregos” e Arrecadação
Há uma questão financeira e burocrática que raramente é debatida com honestidade. A criação de uma estrutura para gerir tal exame demanda cargos, sedes e uma máquina administrativa pesada. Para manter essa engrenagem, surgem as taxas de inscrição e as anuidades obrigatórias.
O risco é transformarmos o exercício da medicina em um privilégio de quem pode pagar o “pedágio” da Ordem, sem que um centavo desse investimento retorne em melhoria real para o SUS ou para a segurança do cidadão. É a institucionalização do “cabide de empregos” sob o manto da ética profissional.
Atacar a Causa, não o Sintoma
Se o governo e as entidades de classe estão realmente preocupados com a qualidade dos médicos, a solução não é testar o aluno após seis anos de investimento e sonhos. A solução é fiscalizar e fechar as faculdades que não possuem hospitais-escola. É impedir a mercantilização do ensino que vende diplomas em troca de mensalidades astronômicas em ambientes sem infraestrutura.
O exame de ordem é um paliativo que pune o aluno pela falha do Estado em fiscalizar as escolas. Precisamos de médicos que saibam curar pessoas, não de bacharéis que saibam vencer burocracias. A saúde não pode virar um mercado de taxas; ela precisa continuar sendo um exercício de competência real.
Autor:
Cesar Tólmi – Dr. em Psicanálise, Especialista em Psicologia Jurídica e Avaliação Psicológica, em Perícia Criminal, em Análise do Comportamento Autista, em Estudo da Linguística, em Neurociência Clínica, em Ciências da Religião, em Gestão Estratégica de Pessoas; Licenciado em Filosofia.
E-mail: cesartolmi@gmail.com


