Em um mundo onde as transformações chegam com a velocidade de um furacão, o livro “Quem Mexeu no Meu Queijo”, de Spencer Johnson, surge como uma fábula simples, mas profundamente reveladora sobre como lidar com o imprevisível. A narrativa, contada através de dois ratinhos, Sniff e Scurry, e dois duendes, Hem e Haw, em um labirinto em busca de queijo, simboliza a vida cotidiana, onde o “queijo” representa empregos, relacionamentos ou conquistas que parecem eternos. Enquanto os ratos detectam mudanças rapidamente e agem sem hesitação, os duendes resistem, ilustrando o drama humano de negação e acomodação.
Essa alegoria ganha relevância no Brasil atual, marcado por reformas fiscais turbulentas e instabilidades políticas que demandam adaptação constante. Profissionais do direito tributário, como aqueles em prefeituras municipais, frequentemente se veem como Hem, presos à burocracia obsoleta, esperando que o “queijo” do sistema anterior retorne magicamente. Haw, por outro lado, nos inspira a sair do labirinto, reconhecendo que monitorar sinais sutis, como diminuição gradual de recursos no Posto C, permite antever o sumiço e buscar novos caminhos. Johnson acerta ao mostrar que a mudança não é punição, mas oportunidade, e ignorá-la leva à fome existencial, como os duendes famintos que preferem lamentar a explorar.
No entanto, a lição central do livro merece uma crítica nuançada, pois simplifica demais a complexidade humana em um corporativismo raso. Sniff e Scurry, com sua ação instintiva, ignoram medos legítimos que Hem verbaliza, como o risco de becos sem saída no labirinto, ecoando dilemas reais em carreiras jurídicas onde uma reforma mal calculada pode custar anos de estabilidade. Essa visão otimista, vendida como autoajuda bilionária, pode culpabilizar vítimas de mudanças sistêmicas, como desempregados em crises econômicas, sugerindo que basta “correr atrás do novo queijo” para prosperar. Ainda assim, Haw escreve nas paredes lições eternas, como “se você não mudar, pode acabar sem queijo” e “fareje o queijo frequentemente para saber quando está ficando velho”, lembretes valiosos para quem, como eu, navega por políticas públicas volúveis.
Em tempos de inteligência artificial redefinindo profissões e eleições globais alterando alianças, o livro de Spencer Johnson clama por equilíbrio entre resistência crítica e ação corajosa. Não se trata de abandonar convicções por modismos, mas de cultivar a agilidade de Scurry sem perder a reflexão de Haw. No final, o verdadeiro queijo não é o achado no Posto N, mas a mentalidade que nos leva lá, provando que, mesmo em um labirinto caótico, quem se mexe come melhor.


