Dica de Leitura: “Outsiders”, de Howard Becker: quando o desvio revela a sociedade

Publicado em 1963, “Outsiders”, do sociólogo norte-americano Howard Becker, permanece como uma das obras mais instigantes da criminologia e da sociologia contemporânea. Longe de tratar o desvio como uma anomalia individual ou um simples comportamento fora da norma, Becker propõe algo mais profundo e, por isso mesmo, perturbador: o desvio é uma etiqueta social, um resultado da forma como certos grupos definem e reagem às ações de outros. É a sociedade, mais do que o indivíduo, que cria o desviante.

Essa inversão de perspectiva, ainda hoje desconfortável, desmonta as noções tradicionais de moralidade e controle social. Quando Becker mostra que os “outsiders” — músicos de jazz, usuários de maconha, pequenas subculturas urbanas — não são necessariamente marginais, mas produtos de um sistema que define quem é aceitável e quem deve ser excluído, ele coloca em xeque o próprio centro das normas sociais. O que é considerado desvio depende de quem detém o poder de nomear e de impor sua visão do que é “normal”. Assim, o livro revela mais sobre a sociedade que julga do que sobre as pessoas julgadas.

No Brasil, onde a criminalização da pobreza e o preconceito institucional continuam moldando nosso imaginário sobre “perigosos” e “marginais”, a leitura de Becker ganha um tom quase urgente. Sua teoria do etiquetamento ajuda a compreender por que as mesmas condutas — o uso de drogas, o trabalho informal, a resistência à autoridade — recebem tratamentos tão distintos dependendo da origem social de quem as pratica. O “desvio”, afinal, é seletivo e serve a propósitos de controle que vão muito além da moral ou da lei.

“Outsiders” nos convida, portanto, a desconfiar da naturalidade com que aceitamos categorias como “criminoso”, “anormal” ou “imoral”. Ele nos obriga a olhar de fora, do ponto de vista daqueles que foram colocados à margem, para perceber que a fronteira entre o dentro e o fora é mais política do que moral. Ler Becker hoje não é apenas um exercício acadêmico, mas um gesto de resistência contra os mecanismos sutis e persistentes de exclusão que atravessam nossas instituições e nossas relações cotidianas.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol