Dr. Josué Montedonio, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, explica por que recusar uma cirurgia pode ser a decisão mais ética e segura
Em um cenário em que a cirurgia plástica costuma ser associada a mudanças rápidas e à busca por padrões estéticos cada vez mais exigentes, uma decisão vem ganhando espaço, e revela um lado ainda pouco discutido da medicina: o limite.
“Eu não vou mais operar.”
A frase, que pode soar como recusa, na verdade traduz responsabilidade.
“Dizer ‘não’ faz parte do cuidado. Nem todo paciente que deseja uma cirurgia está, de fato, preparado para ela, seja física ou emocionalmente”, afirma o cirurgião plástico Dr. Josué Montedonio.
Quando a cirurgia não é a solução
Nem sempre a indicação cirúrgica segue até o final. Mesmo após avaliação e planejamento, o contexto pode mudar, principalmente quando as expectativas passam a ser baseadas em referências irreais.
“Muitas vezes, o paciente chega com imagens de redes sociais que não correspondem à sua estrutura corporal. São biotipos diferentes, idades diferentes, histórias diferentes. Isso cria uma expectativa impossível de ser atendida”, explica o médico.
Nesses casos, o risco deixa de ser técnico e passa a ser emocional.
“Se eu sei que o resultado não vai atender à expectativa criada, operar seria contribuir para uma frustração anunciada”, completa.
Expectativa x realidade: o ponto-chave
A cirurgia plástica pode melhorar contornos e proporções, mas tem limites claros.
“A cirurgia não muda identidade, não transforma uma pessoa em outra e não resolve questões internas. Quando a motivação está baseada em comparação, o resultado nunca será suficiente”, afirma Dr. Montedonio.
Por isso, o alinhamento de expectativas é uma das etapas mais importantes do processo.
“Existe um momento na consulta em que o médico precisa entender não só o que o paciente quer mudar, mas por quê. E, principalmente, se ele compreende o que é possível entregar.”
O papel do médico vai além da técnica
A prática da cirurgia plástica envolve mais do que habilidade técnica. Envolve responsabilidade e tomada de decisão.
“O bisturi não pode ser a resposta para tudo. Às vezes, o melhor resultado é justamente não operar”, destaca.
Segundo ele, essa decisão exige sensibilidade e ética profissional.
“Recusar uma cirurgia não é perder um paciente. É proteger aquela pessoa de um resultado que não traria benefício real.”
Uma decisão que exige maturidade
Em um mercado competitivo, dizer “não” pode ser desafiador. Ainda assim, é uma escolha necessária em muitos casos.
“A medicina não pode ser guiada apenas pelo desejo imediato. Ela precisa ser guiada pelo que é seguro, coerente e sustentável a longo prazo”, afirma.
Para o especialista, essa postura é o que diferencia uma prática responsável.
“O ‘não’ é uma forma de cuidado. É um limite que protege o paciente, inclusive dele mesmo.”
Entre o desejo e o equilíbrio
Com a influência das redes sociais, a pressão por resultados rápidos e perfeitos aumentou, muitas vezes sem considerar contexto ou individualidade.
“Hoje existe uma exposição muito grande de resultados, mas pouca conversa sobre limites. E é justamente nesse ponto que o médico precisa atuar com mais firmeza”, pontua.
O cuidado que começa na recusa
A decisão de não operar pode frustrar no primeiro momento, mas preserva algo maior: a saúde emocional e a relação do paciente com a própria imagem.
“Nem toda transformação precisa ser física. Em muitos casos, o mais importante é ajudar o paciente a ajustar a expectativa, e não o corpo”, conclui Dr. Josué Montedonio.
Autora:
DAIANE BOMBARDA

