Desenrola 2.0 traz alívio momentâneo, mas falha em não oferecer educação financeira

O governo federal deu início a uma nova etapa do programa de renegociação de dívidas, o Desenrola 2.0, com o objetivo de reduzir a inadimplência que atinge 80,4% das famílias brasileiras – segundo dados de março da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O programa oferece condições agressivas, incluindo descontos de até 90% e a possibilidade de parcelamento em até 48 vezes e taxa máxima de juros de 1,99% ao mês.

No entanto, a iniciativa é recebida com ceticismo pelo economista Charles Mendlowicz, sócio da Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero. Para ele, embora o programa possa limpar o nome de muitos brasileiros no curto prazo, ele não resolve o problema estrutural do país. “O problema estrutural continua o mesmo. O programa em si não é ruim, mas ele comunica uma mensagem: o bom pagador sempre se dá mal no Brasil”, avalia Mendlowicz.

O “muro” do endividamento

O economista argumenta que o endividamento atual é resultado de uma soma de fatores que ele compara a tijolos em um grande muro que impede o crescimento do brasileiro. Entre esses fatores estão a alta carga tributária e a manutenção de taxas de juros elevadas devido ao gasto público excessivo.

De acordo com Mendlowicz, o governo retirou o poder de compra da população ao elevar impostos, o que empurrou a classe média para o crédito caro. “Essa dívida não é causada apenas pelo juro abusivo, mas por um cenário onde tudo ficou mais caro”, pontua o Economista Sincero.

O match perigoso: FGTS e o “tigrinho”

Um dos pontos mais polêmicos do Desenrola 2.0 é a permissão para o uso de parte do FGTS para quitar dívidas bancárias. Mendlowicz alerta para um efeito colateral perigoso: a liberação de margem de crédito para pessoas viciadas em apostas esportivas, popularmente conhecidas como “tigrinho”.

“O governo está abrindo as portas do Fundo de Garantia e falando: ‘Tigrinho, esse aqui é o FGTS’. A pessoa quita o banco para ter crédito. Crédito para quê? Para jogar de novo”, critica o economista.

Ele ressalta que o impacto das apostas é mais agressivo do que dívidas de consumo tradicional, pois consome tanto o patrimônio quanto as linhas de crédito sem gerar nenhum ativo em troca. Para Mendlowicz, a restrição de apostas em sites não oficiais é pouco eficaz na prática: “Quem está maluco para jogar, joga em qualquer lugar”.

Procura por renegociação exige atenção redobrada contra golpes

Mendlowicz acredita que o programa é visto como positivo para o sistema financeiro, ao limpar carteiras de crédito podre e garantir recebíveis através do FGTS. Para o cidadão,o alerta principal do economista é contra golpes. “Com o aumento da procura, criminosos têm utilizado sites falsos para enganar quem busca renegociação. Por isso, é importante utilizar apenas canais oficiais e aplicativos bancários verificados”, orienta o Economista Sincero.

Ao finalizar sua análise, Mendlowicz reforça que o Desenrola 2.0 acaba sendo um paliativo que ajuda o endividado a “pedalar a bicicleta” momentaneamente, mas falha em não oferecer educação financeira ou um ecossistema que auxilie a população a sair definitivamente do ciclo de dívidas e apostas.

Grayce Rodrigues
Grayce Rodrigues
Jornalista com MBA em Comunicação Corporativa e especialização em Jornalismo Empreendedor pela University of Texas. Na Publish Ideas, atua como editora e assessora de imprensa.

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