O sonho de viver em uma grande metrópole, antes encarado como o ápice do sucesso profissional e pessoal, está perdendo o brilho para uma parcela significativa da população. Um fenômeno de descentralização urbana ganha força globalmente, caracterizado pela saída em massa de moradores de capitais e centros financeiros em direção ao interior ou a cidades de médio porte.
Para o economista Charles Mendlowicz, fundador do canal Economista Sincero e sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth, esse movimento não é apenas uma tendência passageira, mas uma mudança estrutural na forma como a sociedade enxerga o ato de viver. “Existe toda uma geração que está começando a enxergar que talvez a melhor versão da vida delas não esteja na maior cidade que ela possa pagar, mas sim num lugar onde ela realmente queira viver e ter uma vida normal”, analisa Mendlowicz.
A classe média no centro da mudança
Diferente do que se possa imaginar, o êxodo não é composto apenas por aposentados ou pela camada mais pobre da população: a classe média é o motor dessa transformação. Mendlowicz destaca que, nos Estados Unidos, o perfil migratório foca em pessoas com renda entre US$ 50 mil e US$ 200 mil anuais. “Não são os ricos que estão saindo, ou seja, a gente está falando da classe média, as pessoas que fazem uma cidade realmente parecer uma cidade verdadeira”, explica o economista.
De acordo com o Departamento do Censo dos EUA, o estado de Nova York perdeu mais de 415 mil pessoas em 2024. No Brasil, São Paulo registrou a saída de 825 mil moradores e a chegada de 736 mil (um saldo negativo de quase 90 mil) entre os anos de 2017 e 2022, segundo o Censo divulgado em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O último Censo também revelou que entre as cidades brasileiras com maior proporção de migrantes, não há nenhuma capital ou grande centro urbano.
O peso do custo de vida
O principal catalisador dessa mudança é financeiro. Mendlowicz aponta que a inflação e o custo de moradia tornaram a sobrevivência nas metrópoles um desafio extenuante. “O custo de vida no Brasil disparou. A inflação chega para todos, mas é óbvio que ela é muito mais forte para as cidades maiores”, avalia o Economista Sincero.
Além do aluguel ou valor de compra do imóvel, Charles Mendlowicz enumera outros custos que “estrangulam” o orçamento nas grandes cidades:
- Moradia e manutenção: condomínios caros devido a serviços supérfluos e serviços básicos (como manutenções domésticas) com preços inflacionados;
- Educação: escolas particulares em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro podem custar o dobro de instituições de mesma qualidade no interior;
- Transporte: o gasto com combustível e o desgaste físico em trajetos longos.
Saúde e tecnologia: os novos facilitadores
A decisão de migrar para cidades como Joinville, Campinas ou Sorocaba (citadas pelo economista como exemplos de refúgio), também passa pela saúde mental. Mendlowicz argumenta que o tempo perdido no trânsito é um detrator direto da qualidade de vida: “Menos trânsito significa necessariamente mais saúde. O problema não é só o trabalho, o problema é o trabalho até chegar e sair do trabalho”.
Na análise do economista, a tecnologia atua como o facilitador que faltava no passado. Se antes morar no interior significava isolamento cultural e comercial, hoje o cenário é outro. “Hoje você tem o fenômeno do home office, que ganhou força depois da pandemia. O mundo mudou e está mais fácil ir morar no interior. O acesso a serviços de streaming e o comércio eletrônico equalizaram as oportunidades de consumo entre as metrópoles e as cidades médias”, explica Charles Mendlowicz.
O dilema do mercado de trabalho
Apesar do movimento migratório, o economista faz uma ressalva importante para quem planeja a mudança: o mercado de trabalho nas cidades menores ainda tende a oferecer salários mais baixos. “Na cidade maior você vai ter abundância de vagas de emprego e normalmente os salários são maiores. Em contrapartida, o custo de vida é mais caro”, comenta o Economista Sincero.
Mendlowicz conclui que a migração da classe média para cidades menores está forçando uma reavaliação das políticas urbanas. Enquanto grandes centros sofrem com a perda de renda tributável e o esvaziamento de seus núcleos, outras cidades emergem como o novo porto seguro para quem busca, nas palavras de Mendlowicz, “Conseguir de fato viver nesse lugar, não só sobreviver”.



