Fragmentado, filme de 2016 dirigido por M. Night Shyamalan, é um mergulho inquieto em um personagem que abriga muitas pessoas dentro de um mesmo corpo. Kevin Wendell Crumb, interpretado de forma hipnótica por James McAvoy, sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade e carrega em si 23 personalidades distintas, à beira do nascimento de uma vigésima quarta, temida e reverenciada pelas demais: A Besta. No Brasil, o filme costuma estar disponível em grandes plataformas de streaming por assinatura e para aluguel digital em serviços de vídeo sob demanda, alternando ao longo dos anos entre catálogos como Netflix, Prime Video e outros gigantes, o que mantém o título circulando e acessível a sucessivas gerações de espectadores curiosos. Essa omnipresença em diferentes serviços digitais ajuda a explicar por que Fragmentado segue sendo debatido, reverenciado, criticado e, sobretudo, sentido.
A maior força do filme é, sem dúvida, a atuação de James McAvoy. Seu rosto se torna um palco íntimo onde pequenas mudanças de olhar, postura e voz desencadeiam o surgimento de novas identidades, como se o próprio corpo fosse uma sala cheia de portas que se abrem e se fecham com inquietante naturalidade. Shyamalan, que em outros momentos da carreira exagerou em reviravoltas artificiais, aqui constrói um jogo de tensão gradual, confinando personagens e espectadores em espaços fechados, frios, quase clínicos, em que cada diálogo é uma rachadura a mais no suposto controle que Kevin tenta exercer. O resultado é um suspense psicológico que se aproxima, às vezes demais, do horror, mas que nunca abandona a curiosidade quase científica pelo funcionamento daquele labirinto mental.
Ao mesmo tempo, Fragmentado se insere no universo iniciado em Corpo Fechado e depois ampliado em Vidro, estabelecendo uma espécie de trilogia das fissuras humanas em chave de super-herói torto. Longe do espetáculo colorido dos grandes estúdios, Shyamalan propõe uma mitologia em que o sofrimento, o trauma e a diferença são o combustível de figuras extraordinárias. Kevin, nesse contexto, não é apenas um vilão monstruoso, mas um efeito extremo de um mundo que violenta corpos e memórias. A Besta, como identidade culminante, não nasce do nada, nasce de abusos, de cicatrizes antigas, de um organismo que encontrou na fragmentação um modo torcido de permanecer vivo.
É justamente aqui que o filme suscita reflexões incômodas. Ao associar o Transtorno Dissociativo de Identidade a uma ameaça física brutal, Fragmentado corre o risco de reforçar estigmas sobre saúde mental e alimentar, na imaginação popular, a figura do “louco perigoso” que a psiquiatria e a psicologia moderna tentam há décadas desmontar. Pessoas reais que convivem com esse diagnóstico não são monstros, não são bombas-relógio, não são criaturas sobre-humanas. São sujeitos vulneráveis que merecem cuidado, acompanhamento e respeito. O filme, por sua natureza de thriller, dramatiza e exagera, encenando o transtorno como um espetáculo de perigo, o que exige do espectador um olhar crítico e uma capacidade de separar ficção e realidade.
Por outro lado, é possível enxergar em Fragmentado uma metáfora potente sobre como todos somos, em alguma medida, feitos de partes que nem sempre dialogam bem entre si. A personalidade que mostramos no trabalho não é a mesma que se revela na intimidade, assim como há versões nossas que só emergem em crises, perdas, medos ou conquistas. Kevin, levado ao extremo, nos lembra que a identidade é menos um bloco sólido e mais um mosaico instável, que o eu é uma construção em permanente negociação, e que aquilo que queremos ocultar de nós mesmos pode, em situações de pressão, tomar o controle do volante. O filme, então, pode ser lido como um espelho distorcido, mas eficiente, de nossa própria multiplicidade.
Shyamalan também toca em outro ponto sensível ao sugerir que o sofrimento pode ser, perversamente, um tipo de forja da diferença. A ideia de que “os quebrados são mais evoluídos”, verbalizada no filme, é tão poética quanto perigosa. Ela convida a pensar na dignidade de quem sobreviveu à dor, de quem transformou trauma em força, mas corre o risco de romantizar a violência, como se o sofrimento fosse um requisito para uma espécie de iluminação. O mais saudável talvez seja enxergar essa frase como o delírio de um personagem, e não como uma tese do filme, usando-a para refletir sobre como a sociedade frequentemente só reconhece a força de alguém quando descobre o peso que essa pessoa carrega desde sempre.
Visualmente, Fragmentado é um filme de contenção. A fotografia aposta em tons amarelados, cinzentos e esverdeados que reforçam a claustrofobia, os corredores estreitos, as salas sem janelas, a sensação de porão psicológico. A câmera de Shyamalan se aproxima dos rostos quando as personalidades se alternam e recua nos momentos em que o medo toma o espaço, transformando a geografia em um mapa emocional. A trilha sonora sustenta a tensão com economia, evitando melodramas fáceis e se alinhando à lógica do filme, que prefere sugerir à exaustão do que entregar tudo ao espectador mastigado.
No fim, Fragmentado é uma obra que incomoda por aquilo que tem de melhor e de pior. Como thriller, é eficiente, envolvente e, graças a McAvoy, inesquecível em certas cenas que parecem teatro em alta voltagem. Como representação de saúde mental, é problemático, simplificador e, em alguns pontos, perigoso para quem o consome sem mediação crítica. Talvez seu maior valor esteja justamente nessa ambiguidade, ao nos obrigar a pensar sobre como o cinema lida com o que não compreende totalmente, transformando realidades complexas em metáforas e monstros, nem sempre com responsabilidade, mas quase sempre com impacto.
Nota: 8,0 de 10.


