O Salitre e a Alma: Por que Santos precisa de silêncio em meio ao ruído?

Quem vive em Santos aprende, desde cedo, a conviver com o ruído. Não é apenas o barulho do trânsito ou a agitação urbana comum às metrópoles, é um som profundo, metálico, que vem das entranhas do maior porto da América Latina. É o som das engrenagens, dos guindastes e das sereias dos navios que, dia e noite, lembram que a economia não dorme. Mas, em meio a essa engrenagem gigante, onde fica o espaço para o nosso silêncio?

Recentemente, mergulhei em uma reflexão sobre o que chamo de “anatomia do desassossego”. Percebi que fomos ensinados a olhar para o caos, seja ele sonoro ou existencial, como um erro a ser corrigido. Fomos condicionados pelo “algoritmo da produtividade” a acreditar que viver é resolver problemas, otimizar o tempo e produzir sem cessar. Em uma cidade portuária, essa pressão é quase física: parece que precisamos operar na mesma velocidade dos contêineres.

No entanto, o excesso de ordem e a busca frenética pela eficiência têm um preço alto. Quando transformamos nossa rotina em um gráfico e nosso corpo em uma máquina de carga e descarga, perdemos o que há de mais essencial: a nossa pulsação.

O desassossego, ao contrário do que dizem os manuais de autoajuda, não é uma doença. Ele é o sinal de que ainda estamos vivos sob a crosta do salitre e do cansaço. É na “ fenda “, no intervalo entre uma tarefa e outra, que a alma respira. Precisamos reivindicar o direito ao tempo lento. Precisamos de momentos em que o olhar não busque o lucro, mas apenas o horizonte onde o canal do porto encontra o mar aberto.

A cultura e a contemplação não são luxo, são ferramentas de manutenção da sanidade. Se permitirmos que a lógica das máquinas domine inteiramente nosso espírito, deixaremos de ser cidadãos para nos tornarmos meras peças de reposição.

O Porto é a nossa força, o nosso sustento, a nossa res extensa (a matéria do mundo). Mas a mente santista precisa de silêncio para manter a sua autonomia. Que saibamos, entre o apito de um cargueiro e outro, reencontrar o nosso próprio ritmo. Afinal, a verdadeira beleza da vida não está no padrão perfeito que o sistema exige, mas na coragem de permanecer humano, inquieto e pulsante, em meio ao ruído do mundo.

Autor:

Nuno Nabais Freire

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