Alta renda já não garante estabilidade financeira na medicina, e cresce a busca por gestão profissional e bancos cooperativistas

A medicina sempre foi vista como uma das profissões mais estáveis e financeiramente seguras do Brasil. Entretanto, o que se vê hoje é um quadro muito diferente do que ainda habita o imaginário coletivo: médicos cada vez mais pressionados por jornadas excessivas em consultórios e hospitais e perda gradual de qualidade de vida. O motivo? Precarização dos contratos, pejotização e repasses cada vez menores e atrasados por parte das operadoras de saúde.

Se deixar de ser CLT para abrir a própria empresa não é algo exclusivo de profissionais da área de saúde, é na medicina que esse movimento se torna um problema maior. Isso porque, se antes os médicos acumulavam diferentes frentes de trabalho, mas ao menos em uma delas havia vínculo empregatício com todos os direitos previstos por lei; agora, sendo PJ e com a imprevisibilidade sobre a quantidade de atendimentos “por conta própria” em um mês, a estabilidade desapareceu. Para Kaê Macedo, consultor de investimentos da Unicred Coalizão, essa “pejotização” massiva, que no início era um simples ‘atalho tributário’, se tornou uma estrutura complexa que exige planejamento de pró-labore e distribuição de lucros. “Além disso, a Reforma Tributária de 2026 e a tributação de dividendos, com retenção de 10% para valores acima de R$ 50 mil mensais, obrigam o médico a ter uma política de retirada organizada da melhor forma possível”, pontua.

A realidade de quem vive uma rotina marcada por tantas oscilações de faturamento é preocupante, já que, na prática, a previsibilidade e o controle de caixa são os pilares da gestão e, sem ela, mesmo médicos que ganham muito podem enfrentar dificuldades para fechar o mês no azul. Mas é possível melhorar esse cenário. “Um ponto de partida é entender a banda de oscilação da renda, suas sazonalidades e o cenário prospectivo da profissão para, a partir disso, estabelecer custo e qualidade de vida, de forma que possamos abarcar a construção de patrimônio nesse orçamento. Um modelo sempre vai precisar de ajustes para cada profissional. Entretanto, um método padrão muito utilizado é o 50/30/20. 50% para despesas fixas (moradia, saúde, alimentação), 30% para despesas variáveis (lazer, estilo de vida), e 20% para investimentos e pagamento de dívidas. Para clínicas, o fluxo deve ser dividido em operacional (rotina), projetado (previsões futuras) e livre (disponível para sócios ou reinvestimento)”, sugere Kaê.

Mas quando a pessoa deve começar a se preocupar com o seu nível de endividamento? Para o consultor de investimentos, quando mais de 20% da renda é destinada ao pagamento de dívidas e não existe espaço para fazer investimentos, essa condição já expõe uma fragilidade econômica. Por isso, para evitar danos maiores na saúde financeira com o passar dos anos, algumas medidas devem ser tomadas. “Não eleve seu padrão de vida precocemente, pois provavelmente não vai conseguir equilibrar as contas no improviso, fazendo inúmeros plantões para pagar contas correntes. Faça também reservas de emergência, guardando entre 3 e 12 meses do custo de vida ou despesa operacional, dependendo da sua instabilidade financeira. Esse recurso deve estar alocado em investimento conservador de alta liquidez”, diz.

Outro ponto importante é não misturar pessoa física e jurídica. Esta prática ainda é o erro número 1 de médicos autônomos e empresários, pois causa ineficiência financeira e riscos fiscais graves, como a requalificação de gastos pessoais usados para distribuição disfarçada de lucros pela Receita Federal. Inclusive, avalia Macedo, a confusão patrimonial entre PF e PJ e a falta de um planejamento de longo prazo são os principais riscos que impedem médicos de transformar renda alta em patrimônio consistente. “O ajuste ideal seria procurar ajuda profissional, implementar o controle de finanças de fluxo de caixa para sair do “achismo”. Não estou falando de contratar softwares sofisticados, mas uma simples planilha muitas vezes é o suficiente para mudar completamente o rumo das finanças”, esclarece.

Macedo alerta, ainda, sobre um hábito bastante comum entre profissionais de alta renda: elevar rapidamente o padrão de vida sem pensar se há como fazer isso. “Não existe um percentual seguro ou fixo de crescimento de despesas que garanta não comprometer o patrimônio. Mas algumas boas práticas incluem criar um plano de orçamento para o ano seguinte, basear-se na renda pela média dos últimos 12 meses mais ajustes (imprevistos, aumento de preços e crescimento da base de clientes). Priorizar o aumento do custo de vida assim que a renda sobe é um erro. A prioridade deve ser manter a consistência dos aportes para construção de patrimônio”, diz.

Investir é preciso, mas como?

A falta de previsibilidade é hoje um dos principais fatores de desgaste econômico entre profissionais da saúde. Até mesmo médicos com faturamento elevado podem enfrentar dificuldades financeiras quando não possuem controle sobre despesas, reservas e investimentos. A recomendação mais comum é adotar modelos básicos de organização financeira, como a divisão da renda entre despesas fixas, gastos variáveis e construção patrimonial, além da criação de reservas de emergência mais robustas, capazes de cobrir entre três e doze meses de custo de vida ou operação da clínica. Mas, além dessas ações, criar o hábito de investir é eficaz e pode aliviar as surpresas da profissão.

Para profissionais com renda irregular, como os médicos, a diversificação do investimento é essencial, pois mitiga o risco. Entretanto, é preciso estar atento à correlação. Afinal, ter duas fontes de renda no mesmo segmento é se expor aos mesmos riscos duas vezes; enquanto fontes de renda de diferentes segmentos cumprem seu papel na diluição de risco, o que serve para ativos financeiros ou negócios.

Para os que pensam em proteção patrimonial, é preciso avaliar os riscos aos quais o profissional está exposto: complexidade tributária, insegurança jurídica e responsabilidade civil são alguns dos fatores que estão chamando a atenção dos profissionais da saúde para o tema. “Existem soluções sofisticadas como a Holding Patrimonial, sugerida para segregar riscos da atividade profissional dos bens da família. Mas os primeiros cuidados passam por soluções simples, como a escolha do tipo jurídico (SLU, LTDA, SS, EI etc), regime tributário, apólice de responsabilidade civil, DIT para casos de incapacidade laboral, entre outros”, pontua Macedo.

Já para aqueles que contam com crédito disponível, é preciso avaliar o impacto do recurso no faturamento do negócio e se o novo faturamento é o suficiente para cobrir o pagamento da dívida. “Se o crédito atende a essas condições, então, é uma excelente ferramenta de crescimento. Para ajudar nessa avaliação pode-se utilizar as ferramentas financeiras de “Payback” (tempo de retorno do capital investido) e “TIR” (Taxa Interna de Retorno, calcula a rentabilidade percentual anualizada de um projeto ou investimento)”, sugere.

Mas um alerta importante: as pessoas, quando começam a ganhar bem, tendem a assumir mais riscos financeiros por acreditarem que conseguirão pagar tudo trabalhando mais. Entretanto, isso pode se tornar uma bola de neve sem final feliz. “No início da carreira é fácil corrigir alguma extravagância pontual com o aumento da carga horária de trabalho. Essa facilidade acaba entrando na rotina, e coloca o profissional em um novo patamar de renda. E aí, ele vai se acostumando a estabelecer novos patamares de qualidade de vida. Com isso, vai esticar esse processo à exaustão, ou pior, contrair dívidas de longo prazo com base nessa renda “turbinada”. Porém, no fim, a saúde do profissional pode cobrar seu preço ou a perda de algum contrato de trabalho fazer essa estrutura ruir”, conclui o consultor de investimentos da Unicred Coalizão.

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