Você está consumindo longevidade ou construindo longevidade?

A reportagem publicada pelo Estadão reacendeu uma discussão que, para mim, está longe de ser pontual. Ela expôs algo que quem acompanha de perto esse campo já percebe há bastante tempo. A longevidade virou discurso antes de virar estrutura. E quando isso acontece, o espaço entre a ciência e o oportunismo fica perigosamente pequeno.

Vivemos um momento em que a ideia de viver mais passou a ocupar o imaginário coletivo com uma força impressionante. Nunca se falou tanto sobre envelhecer bem. Nunca se vendeu tanto a promessa de performance, vitalidade, prevenção, energia, rejuvenescimento, bem estar e alta capacidade funcional. O problema é que, junto com esse interesse legítimo, cresceu também um mercado que entendeu rápido demais como transformar ansiedade em produto.

É aí que mora o ponto central desta conversa.

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De um lado, existe o avanço sério da ciência. Existe pesquisa consistente, prevenção de verdade, medicina personalizada com base clínica, equipes multidisciplinares, biomarcadores interpretados com responsabilidade, protocolos construídos com critério, acompanhamento longitudinal e uma visão mais ampla sobre o processo de envelhecimento. Do outro lado, cresce um universo sedutor que mistura linguagem técnica, aparência de sofisticação e baixa sustentação científica. Exames em excesso, suplementos sem necessidade real, hormônios utilizados fora de contexto, promessas grandiosas, modismos importados e um discurso de rejuvenescimento que muitas vezes fala mais com o medo do tempo do que com a realidade do cuidado.

O debate, portanto, não deveria ser se a medicina da longevidade é boa ou ruim. Essa pergunta é simplista demais para o tamanho do desafio que temos pela frente. A questão mais importante é outra. Estamos construindo um campo sólido para responder ao novo Brasil que envelhece, ou estamos apenas transformando a longevidade em mais um nicho premium para consumo aspiracional?

Essa pergunta ganha ainda mais peso quando olhamos para o país real.

O Brasil mudou. Mudou rápido. Mudou muito. E mudou sem pedir licença.

Os números mostram isso de forma inequívoca. A população com 60 anos ou mais cresceu intensamente nos últimos anos e continuará crescendo nas próximas décadas. Não se trata de uma hipótese. Trata se de uma transformação demográfica em curso, profunda, irreversível e com enorme impacto sobre saúde, trabalho, moradia, relações de consumo, políticas públicas, estrutura familiar e organização econômica. O país está envelhecendo, e esse envelhecimento não pode mais ser lido apenas como uma pauta assistencial. Ele precisa ser entendido como uma reorganização estrutural da sociedade.

Talvez esse seja um dos erros mais recorrentes do debate público. Ainda existe muita gente olhando para a longevidade como se ela fosse um tema restrito a quem já chegou à velhice. Não é. A longevidade diz respeito ao que acontece com todos nós ao longo do tempo. Ela fala sobre como vamos trabalhar, adoecer, amar, consumir, cuidar, morar e decidir nas próximas décadas da vida.

É por isso que venho insistindo em uma ideia que considero decisiva. Longevidade não começa aos 60. Longevidade se constrói muito antes.

A pessoa que hoje tem 30 anos já está desenhando, mesmo sem perceber, a qualidade dos seus 70, dos seus 80 e talvez dos seus 90. A pessoa que hoje tem 40 está tomando decisões que impactarão sua reserva cognitiva, sua saúde metabólica, sua força muscular, sua estabilidade emocional, sua autonomia funcional e até sua capacidade de manter vínculos significativos no futuro. A pessoa que hoje tem 50 não deveria estar começando a pensar em longevidade. Deveria estar aprofundando um projeto que já vinha sendo construído há muito tempo.

Quando eu digo que longevidade se pensa a partir dos 30, não estou fazendo uma provocação vazia. Estou falando de matemática da vida. Estou falando de fisiologia, de comportamento, de economia e de cultura. O que se faz hoje repercute amanhã. E o amanhã, neste caso, pode durar muitas décadas.

Esse ponto, para mim, é essencial porque desloca a conversa do consumo para a construção.

Consumir longevidade é acreditar que existe um exame, um produto, um protocolo ou uma consulta capaz de resolver, em curto prazo, o que na verdade depende de escolhas contínuas, ambiente favorável, acompanhamento sério e visão de longo prazo. Consumir longevidade é terceirizar para o mercado a esperança de envelhecer bem. É comprar a embalagem da vitalidade sem necessariamente enfrentar o trabalho real que a construção da vida exige.

Construir longevidade é outra lógica. É entender que o tempo é parte do projeto. É aceitar que sono, alimentação, movimento, saúde mental, propósito, vínculos, planejamento financeiro, repertório cognitivo, prevenção clínica e ambiente social não são temas soltos. São partes de um mesmo sistema. É reconhecer que viver mais não basta. É preciso sustentar capacidade, autonomia, sentido e presença ao longo desse tempo ampliado.

E é justamente nesse ponto que entra um conceito que o Brasil ainda não incorporou como deveria. Cultura gerontológica.

Esse é um termo poderoso, porque muda radicalmente a forma de enxergar o envelhecimento. Quando falamos em cultura gerontológica, não estamos falando apenas de uma especialidade ou de um conjunto técnico de protocolos. Estamos falando de uma nova maneira de compreender o curso da vida. Estamos falando de olhar o envelhecimento como fenômeno biológico, psicológico, social, econômico, ambiental, relacional e também simbólico.

Quando a cultura gerontológica não existe, a longevidade vira vitrine. Vira marketing. Vira repertório de frases bonitas, imagens elegantes e promessas individualizadas. Quando a cultura gerontológica existe, a longevidade vira estratégia de vida e também projeto de sociedade.

Essa diferença é enorme.

Porque, sem essa base, a pergunta dominante passa a ser como parecer mais jovem. Com essa base, a pergunta correta passa a ser como permanecer mais funcional, mais consciente, mais inserido, mais ativo e mais inteiro ao longo do tempo. Sem essa base, o envelhecimento é tratado como ameaça a ser escondida. Com essa base, ele passa a ser compreendido como uma etapa da vida que precisa de estrutura, inteligência, preparo e dignidade.

É por isso que considero tão relevante o exemplo do Age & Health Center no Brasil.

Falo disso com convicção, porque observo o mercado de longevidade há mais de duas décadas e aprendi a distinguir discurso bem embalado de construção consistente. O que torna o Age & Health Center uma proposta realmente inovadora não é a estética, não é a linguagem e não é a aparência de sofisticação. O que o torna diferente é o ponto de partida. Ele não foi desenhado para responder apenas à doença instalada ou ao colapso funcional já evidente. Ele trabalha com a lógica da jornada. Ele entende que a longevidade precisa ser organizada por décadas de vida, integrando saúde, comportamento, relações, finanças, escolhas e propósito em uma visão continuada.

Essa abordagem, para mim, é muito mais madura.

Porque ela rompe com a ideia de que o cuidado só começa quando o problema aparece. E mais do que isso, rompe com a ideia de que longevidade é um assunto de nicho. Não é. Longevidade é infraestrutura humana. É base de planejamento individual, familiar, empresarial e institucional.

No livro Diversa Idade, que escrevi com Tati Gracia, mostramos justamente isso. A longevidade não pode ser lida como um tema periférico. Ela já reorganiza o trabalho, o consumo, a moradia, o cuidado, a experiência urbana, os serviços, a economia e as relações entre gerações. Ela muda o papel da família. Muda a lógica do mercado. Muda o desenho das cidades. Muda o que as marcas precisam entender sobre seus públicos. Muda o que empresas, governos e profissionais de saúde precisam fazer agora para não chegarem atrasados ao Brasil que já começou.

Por isso, a reportagem do Estadão é importante. Não porque encerra o debate, mas porque o abre da forma certa. Ela nos obriga a olhar para esse campo com menos deslumbramento e mais responsabilidade. Obriga a separar ciência de espetáculo. Obriga a fazer perguntas incômodas. Obriga a entender que o crescimento da pauta da longevidade é real, necessário e irreversível, mas que sua consolidação depende de critério, ética, cultura e visão de longo prazo.

A medicina pode e deve participar dessa conversa. Mas ela não pode ocupar esse espaço como protagonista absoluta. O protagonista continua sendo o modo como cada pessoa, cada instituição e cada sociedade decide se preparar para o tempo.

No fim, a questão continua a mesma, mas talvez agora mais clara.

Você está consumindo longevidade ou construindo longevidade?

Porque existe uma diferença enorme entre comprar a sensação de controle e, de fato, construir uma vida que sustente presença, autonomia e sentido ao longo dos anos.

E é justamente nessa diferença que será decidido o futuro desse campo.

Willians Fiori

Especialista em Mercado de Longevidade desde 2003

Professor Pós-Graduação em Geriatria, Gerontologia e Mercados — Hospital Israelita Albert Einstein

Professor Convidado: FIA, UFRJ, PUC-SP e INSPER, FAAP

Autor dos Livros: Diversa-Idade, Brasil 2060,O cérebro que podemos proteger

Citado no livro Longevity Hub do MIT (Massachusetts Institute of Technology) como principal especialista brasileiro no temaPremiado pela ONU Latin America e detentor do Selo Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo
Premiado pelo Premio Bstory Longevidade
Membro do conselho Europeu de Silver Economy

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