Em um mundo cada vez mais digitalizado, onde o acesso à informação parece estar a um clique de distância, a ideia de acumular pilhas e pilhas de livros físicos em casa pode parecer, para alguns, um anacronismo. No entanto, para mentes como a do saudoso Umberto Eco, o semiólogo, filósofo e romancista italiano, ter muitos livros não era apenas um hábito, mas uma filosofia de vida, um testemunho da humildade intelectual e da incessante busca pelo conhecimento. E para mim, Manuel Flavio, que tenho a alegria de possuir uma biblioteca pessoal com quase 4 mil volumes, essa perspectiva ecoiana ressoa profundamente.
Minhas estantes abrigam um verdadeiro ecossistema de ideias, onde os mais diversos pensadores e narradores convivem em uma harmonia peculiar. Imagine só: em um canto, Platão e Kant debatem sobre a natureza da realidade e da moral, enquanto Hannah Arendt observa, com sua perspicácia habitual, as origens do totalitarismo. Logo ao lado, Marx e Weber talvez discutam sobre as estruturas sociais e o capitalismo, com Durkheim ponderando sobre a coesão social e Bourdieu acenando em concordância ou discordância, dependendo do tópico. E, claro, o próprio Umberto Eco está ali, provavelmente sorrindo com a bagunça organizada de sua própria filosofia da biblioteca.
Essa diversidade não para por aí. Meus volumes me convidam a desvendar as complexidades do pensamento humano e das estruturas sociais, desde os densos tratados de filosofia e sociologia até os rigorosos volumes de ciência política e direito, que iluminam os alicerces de nossa convivência. No setor jurídico, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso parecem trocar olhares sobre as últimas decisões, enquanto John Grisham anota ideias para seu próximo thriller judicial. E sim, a antropologia também tem seu lugar de honra, permitindo-me explorar as fascinantes culturas e os intrincados caminhos da humanidade, talvez com Lévi-Strauss ou Clifford Geertz me guiando por entre rituais e símbolos, enquanto Ailton Krenak nos lembra da urgência de repensar a relação com a terra e Achille Mbembe discute as complexidades da condição pós-colonial.
No palco filosófico, Nietzsche talvez esteja provocando a todos com seu martelo, enquanto Habermas busca o consenso comunicativo e Bauman reflete sobre a liquidez dos tempos modernos. Byung-Chul Han certamente estaria alertando sobre a sociedade do cansaço, e Simone de Beauvoir e Bell Hooks conversariam com Djamila Ribeiro e Lélia Gonzalez sobre as nuances do feminismo e da liberdade. Se Michel Foucault estiver por perto, certamente estará analisando as relações de poder.
Lado a lado, repousam as vastas paisagens das ficções e romances, portais para mundos imaginários e reflexões sobre a condição humana. Aqui, a voz potente de Conceição Evaristo ecoa com histórias de resistência e beleza, enquanto Tolkien nos transporta para a Terra Média, e Paulo Coelho nos lembra da jornada do herói. Não seria surpresa encontrar Machado de Assis trocando um olhar irônico com Gabriel García Márquez, ou Virginia Woolf e Clarice Lispector compartilhando segredos sobre a alma feminina. Graciliano Ramos e George Orwell talvez troquem impressões sobre a condição humana em tempos difíceis, e Albert Camus medite sobre o absurdo da existência, enquanto as “auroras” de sagas fantásticas e românticas brilham, cada uma a seu modo, encantando gerações com suas magias e paixões.
As inspiradoras biografias narram vidas extraordinárias – como a de Nelson Mandela, um farol de resiliência e justiça – e as perspicazes crônicas de Rubem Alves nos convidam a saborear a vida com poesia e sabedoria. No campo da ética e da resistência, Epicteto talvez converse com Leandro Karnal e Mario Sergio Cortella sobre a sabedoria prática e os desafios da vida contemporânea. E para finalizar a orquestra, os versos apaixonados de Pablo Neruda flutuam no ar, enquanto Augusto Cury encontra seu espaço, oferecendo reflexões sobre a inteligência emocional em meio a tantos pensadores. Essa diversidade não é aleatória; ela é a materialização de uma curiosidade sem limites, um diálogo constante com as mais variadas formas de saber e narrar.
Eco, com sua lendária biblioteca pessoal que contava com dezenas de milhares de volumes, não via seus livros como meros objetos decorativos ou troféus de leitura. Pelo contrário, para ele, uma biblioteca era um “santuário do conhecimento inacabado”. Ele costumava dizer que os livros que já lemos são importantes, sim, mas os que ainda não lemos são ainda mais. Essa afirmação, que à primeira vista pode soar contraintuitiva, revela a essência de sua paixão bibliófila e a minha própria experiência. Cada um dos meus quase 4 mil livros, lidos ou ainda por ler, é um lembrete vívido da imensidão do que ainda me aguarda.
Ter muitos livros em casa, na visão de Eco e na minha própria vivência, não é sobre ostentação, mas sobre a consciência da vastidão do que não sabemos. Cada volume não lido em nossa estante é um lembrete gentil da imensidão do saber que ainda nos aguarda, um convite constante à exploração e à descoberta. É a materialização da curiosidade insaciável, a promessa de futuras jornadas intelectuais que se desdobram entre as páginas de um tratado de filosofia ou nas reviravoltas de um romance histórico.
Além disso, a presença física dos livros cria um ambiente de serendipidade. Ao passear os olhos pelas lombadas de minha coleção, sou exposto a ideias, autores e temas que talvez nunca tivesse procurado ativamente no ambiente digital. Um título esquecido de sociologia pode saltar aos olhos, uma biografia pode me levar a um novo caminho de pesquisa sobre um período histórico, ou uma crônica pode inspirar uma nova perspectiva sobre o dia a dia. A biblioteca física é um ecossistema vivo, onde as conexões são feitas de forma orgânica e muitas vezes surpreendente, enriquecendo a mente de maneiras que a busca direcionada na internet raramente consegue replicar.
Eco também nos ensina que a verdadeira sabedoria não reside em ter todas as respostas, mas em saber onde procurá-las. Seus livros eram ferramentas, fontes de consulta, pontos de partida para novas reflexões. Eles representavam um diálogo contínuo com o passado e o presente, uma forma de se engajar com as grandes mentes da história, seja através de um clássico do direito ou de uma obra-prima da ficção.
Portanto, para aqueles que se perguntam por que alguém, como eu, teria tantos livros, a resposta, sob a ótica de Umberto Eco e confirmada pela minha própria paixão, é clara: é um ato de humildade intelectual e de amor pelo aprendizado. É reconhecer que o conhecimento é um oceano sem fim e que cada livro é uma embarcação pronta para nos levar a novas e inexploradas ilhas de sabedoria. É, em última análise, um convite para nunca parar de aprender, de questionar e de se maravilhar com a riqueza do pensamento humano.
Que nossas estantes, então, continuem a crescer, não como monumentos ao que já sabemos, mas como testemunhos vibrantes do que ainda temos a descobrir. E que cada novo volume seja uma promessa de aventura intelectual.


