A Farsa da “Falta de Mão de Obra” e a Síndrome Escravocrata que Assola o Brasil

É hora de desmascarar a hipocrisia. A ladainha sobre a “falta de mão de obra” no Brasil não passa de um véu esfarrapado para esconder uma verdade incômoda: a elite brasileira ainda vive presa a uma mentalidade escravocrata, incapaz de aceitar que o filho do peão ou do pedreiro almeje algo além da enxada ou da colher de pedreiro.

O fazendeiro lamenta que a “fábrica de peões acabou”, enquanto o empresário da construção civil chora a ausência de pedreiros e mestres de obras. Mas a realidade é outra: os pais, com razão, querem um futuro melhor para seus filhos. Querem que estudem, que se tornem “doutores”, que rompam o ciclo de uma vida “ruim, sofrida”. E qual o problema nisso? O problema é que essa ascensão social, por mais modesta que seja, fere a sensibilidade de quem sempre se beneficiou de uma vasta e barata força de trabalho.

A cereja do bolo dessa farsa é a empresária que surta porque um funcionário ousou passar o Natal com a família, preferindo a vida pessoal ao lucro alheio. A culpa? Ah, claro, o indefectível Bolsa Família! Esse argumento, além de burro, é cruel e desonesto. É preciso ter a coragem de um avestruz para ignorar a matemática básica: R$ 600,00 por família não sustenta ninguém, não paga aluguel, luz, água, gás, transporte ou remédios. É um auxílio mínimo, uma migalha que mal cobre dez dias de cesta básica para três pessoas. O que se faz nos outros vinte? Jejum intermitente?

A verdadeira questão não é a “indolência” dos mais pobres, mas a cegueira e a ignorância daqueles que, do alto de seus privilégios, atacam pessoas já tão sofridas. De onde surge tanto ódio contra quem aceita uma ajuda mínima do Estado, enquanto esse mesmo Estado gasta trilhões em financiamentos, isenções e juros astronômicos para os bilionários dos bancos, do agronegócio e das grandes corporações? Onde está a revolta contra o “Bolsa Bilionário”, que enriquece ainda mais as grandes fortunas e sufoca os pequenos e médios empresários? A indignação seletiva é a marca registrada dessa elite.

É inegável: muita gente ainda não superou a síndrome do escravocrata. Acreditam piamente que alguns nasceram para trabalhar e outros para lucrar, numa hierarquia social imutável. Por séculos, a escravidão e o subemprego foram hereditários, condenando o filho do pobre a perpetuar a miséria. Mas, nas últimas décadas, algo mudou. Tímidas intervenções sociais – avanços na saúde, educação e alimentação para os mais carentes – começaram a diminuir os abismos sociais. E isso, pasmem, é motivo de ódio e crítica feroz.

Essa gente torce o nariz quando vê um pobre andando de avião. Fica revoltada quando a filha da doméstica entra na faculdade. Odeia, com todas as forças, ver o filho do peão estudar e ascender. A verdade é que o problema não é a falta de mão de obra, mas a falta de dignidade e a recusa em aceitar que o Brasil está, lentamente, tentando se livrar das amarras de um passado colonial. A “fábrica de peões” realmente acabou, e é uma pena que alguns ainda não tenham percebido que a liberdade e a busca por um futuro melhor são direitos, não privilégios.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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