
Nunca fui pintor.
Mas foi assim que tudo começou.
Eu passava dias inteiros sem saber exatamente o que fazer com o tempo. Havia uma espécie de vazio que não chegava a doer — apenas ocupava espaço. Caminhava sem destino, sentava-me em bancos de praça, observava pessoas que pareciam ter sempre algum lugar para ir.
Foi numa dessas tardes que entrei na pequena galeria.
Não por interesse. Por acaso.
Ou pelo que mais tarde passei a chamar de acaso.
O lugar era simples. Pouca luz, quadros espalhados sem muita ordem, um silêncio que não convidava à permanência. Eu já me preparava para sair quando a vi.
Não era o quadro.
Era ela.
Estava sentada no fundo da sala, como se já me esperasse.
— Você demorou — disse, com naturalidade.
Olhei ao redor, certo de que falava com outra pessoa.
— Desculpe… — comecei.
Ela sorriu, interrompendo.
— Não precisa explicar. Às vezes a gente leva tempo mesmo.
Havia algo no modo como falava — como se conhecesse um pouco mais do que deveria.
Sentei-me.
Conversamos.
Não lembro exatamente sobre o quê. Lembro do tom, da calma, da forma como ela parecia encontrar sentido em coisas que, para mim, sempre foram vagas. Em algum momento, mencionou pintura.
— Você já tentou? — perguntou.
Ri.
— Não levo jeito pra isso.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Jeito é uma palavra que atrapalha muita gente.
Voltei no dia seguinte.
E no outro.
E no outro.
Comecei a pintar.
No início, eram formas indecisas, cores sem direção. Mas ela observava tudo com uma atenção que me desconcertava.
— Continue — dizia. — Não corrija tão rápido.
Havia dias em que eu não a via chegar. Apenas estava lá.
Outras vezes, parecia ter saído por um instante — e não voltava.
Nunca perguntei muito.
Algumas coisas funcionavam melhor sem resposta.
Com o tempo, os quadros começaram a mudar.
Ou talvez fosse eu.
As cores encontravam lugar. As formas, alguma intenção. Pessoas começaram a notar. Primeiro um comentário, depois outro. Um convite. Uma pequena exposição.
Ela sempre presente.
Ou quase.
— Não se preocupe com o que estão vendo — disse certa vez. — Pinte como se ninguém fosse olhar.
Mas olhavam.
E compravam.
Não demorou para que me chamassem de pintor.
Aceitei.
Talvez porque já não soubesse o que era antes.
Numa das exposições maiores, senti falta dela.
Procurei pela galeria antiga. Estava fechada.
Porta trancada, poeira nos cantos, um papel desbotado colado no vidro.
Uma vizinha me disse que o lugar não funcionava havia anos.
Insisti.
— Mas havia uma mulher… — comecei.
Ela franziu a testa.
— Sempre esteve fechado.
Voltei mais algumas vezes.
Nada.
Naquela noite, mexendo entre telas antigas, encontrei um quadro que não lembrava de ter pintado.
Era o retrato dela.
Não havia assinatura.
A expressão era serena, quase indulgente — como se observasse algo além de mim.
Levei o quadro para a próxima exposição.
Foi o primeiro a ser vendido.
Um colecionador insistiu.
Pagou mais do que eu já havia recebido por qualquer outro.
— Impressionante… — disse ele, antes de levá-lo. — você conseguiu captar alguém que já não está mais aqui.
Fingi entender.
Mas, quando o quadro passou de minhas mãos para as dele, senti um leve vazio — não físico, mas como se algo tivesse sido deslocado dentro de mim.
Naquela noite, não consegui ficar na exposição.
Voltei para casa.
Preparei as tintas, como sempre fazia.
Esperei.
Nada.
O silêncio parecia mais denso, mais fechado.
Olhei para a tela em branco por muito tempo, tentando lembrar por onde começar. As cores, antes tão evidentes, agora pareciam distantes, quase inacessíveis.
Foi quando ouvi o toque do celular.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Abri.
Era uma foto.
O retrato.
Mas não exatamente o mesmo.
A mulher — agora mais nítida — loira, olhos verdes, a pele iluminada por uma luz que não reconheci. Havia algo no olhar… menos sereno, mais direto. Quase íntimo.
Abaixo da imagem, uma única frase:
— Eu sabia que você conseguiria.
Fiquei imóvel.
O telefone ainda aceso na minha mão.
E, pela primeira vez desde que comecei a pintar, tive certeza de uma coisa:
Ela não estava nos quadros.
Nem na galeria.
Ela estava… em outro lugar.
E, de algum modo, ainda me esperando


