Não sei exatamente quando a realidade começou a se confundir com a imaginação. Só sei que, de repente, eu estava lá.
Dentro de uma nave feita de água.
Pode parecer loucura, mas era água mesmo. Não gelo, não metal transparente. Água viva, moldada por alguma ciência que ainda não existe nos livros que conheço. As paredes pulsavam suavemente, como se tivessem coração.
Do lado de fora, o universo.
Estrelas por todos os lados. Planetas coloridos flutuando como grandes balões silenciosos. A Terra lá longe, pequena e azul, quase ao alcance da mão.
Durante anos imaginei algo parecido quando estudava um pouco de física. Pensava que, se alguém dominasse as moléculas da água, poderia construir uma nave triangular, capaz de mudar de direção apenas transferindo força entre seus vértices.
Ali estava eu.
Dentro do meu próprio sonho.
Ao meu lado, sentado com a tranquilidade de um velho professor, estava Bom-Senso.
— Você merece ver tudo isso — disse ele, como se estivesse comentando o tempo.
— Eu? — perguntei, ainda tentando entender se estava acordado.
Ele sorriu.
— Não sou apenas eu que penso assim. Existe uma grande árvore cujas raízes são seus antepassados. Eles também acreditam nisso.
Respirei fundo. O silêncio do universo tinha uma música própria.
— Olhe à esquerda — disse ele.
Uma imensa nuvem de poeira cósmica brilhava diante de nós.
— Ali nascerá uma estrela. Talvez um planeta. O universo está sempre criando alguma coisa nova.
Fiquei hipnotizado pela visão.
Foi quando ouvimos o impacto.
Plaft!
A nave começou a girar.
Primeiro devagar. Depois cada vez mais rápido.
As estrelas se transformaram em riscos luminosos e a cabine rodopiava como um brinquedo arremessado ao espaço.
— Bom-Senso!
Nenhuma resposta.
Olhei para ele.
Desmaiado.
Respirei fundo, tentando controlar o pânico. Não sabia pilotar bicicleta direito, quanto mais uma nave feita de água viajando pelo universo.
No painel havia símbolos estranhos, luzes pulsando dentro da própria matéria líquida da cabine. Era como olhar para um bloco de gelo colorido por dentro.
Pense.
Uma voz dentro da minha cabeça repetia isso.
Pense.
Lembrei de uma frase antiga de um professor de física, o velho Artur, lá dos tempos de colégio. Algo sobre movimento circular e forças contrárias.
Foi então que percebi um detalhe no painel.
Uma inscrição simples:
Formas geométricas para situações especiais.
Triângulos. Quadrados. Hexágonos.
E círculos.
Não pensei duas vezes.
Apertei com a mão inteira o símbolo da circunferência.
A nave reagiu imediatamente.
Jatos de vapor escaparam pelas laterais e a estrutura líquida começou a se reorganizar. O triângulo desapareceu e, em poucos segundos, estávamos dentro de uma esfera perfeita.
O rodopio cessou.
Silêncio novamente.
Respirei aliviado.
Joguei um pouco do líquido que havíamos bebido no rosto de Bom-Senso. Ele abriu os olhos com calma e espreguiçou-se.
— Que soneca maravilhosa — disse.
Fiquei olhando para ele sem acreditar.
— O senhor não viu o que aconteceu?
— Claro que vi.
— E não se assustou?
Ele me observou com aquele olhar de pai paciente.
— Não havia motivo. Você teve bom-senso.
Ri nervoso.
— Eu? Estava morrendo de medo.
— Mesmo assim pensou antes de agir. Isso é raro.
Depois de alguns minutos ajustando o painel, a nave mudou novamente de direção.
— Vamos voltar — disse ele.
— Para onde?
— Para casa.
A nave desceu lentamente até a atmosfera de um planeta distante, tão parecido com a Terra que parecia seu irmão esquecido no universo.
Saltamos pelo fundo da nave usando o velho paraquedas de Bom-Senso, que ele chamava carinhosamente de Albatroz.
Descemos entre nuvens e vento forte até tocar a copa de uma enorme árvore.
Depois disso, lembro apenas de galhos quebrando, um raio iluminando o céu e a sensação de cair sobre um tapete de folhas.
Quando acordei, estava sozinho.
A tempestade havia passado.
Sentei-me numa clareira e adormeci novamente.
Sonhei com todos eles. Com toda a família do meu velho guia, o sr. Bom-Senso, nessa singular aventura.
Seu parente mais sábio — o sr. Bobo, sempre sorrindo, como quem entende mais do que parece. Harmonia — seu primo, o mais jovem de todos, cheio de promessas. Eles conversavam como uma família feliz. Bom-Senso levantava um jarro com aquele líquido estranho que parecia água, e brindamos, como se aquilo fosse durar para sempre.
Eles estavam em festa.
— Você é o motivo da nossa alegria — disseram. — Em você vivem todas as nossas raízes.
Queriam que eu fizesse um discurso.
Foi quando ouvi o primeiro estrondo.
Bum.
Depois outro.
Ratata. Bum.
O céu explodiu em luzes violentas.
Abri os olhos.
Lá em cima, o universo seguia em silêncio, criando estrelas. Lá embaixo, o homem destruía o que já existia. Tudo ao mesmo tempo.
Não havia estrelas.
Em seu lugar, milhares de clarões cortavam a noite. Aviões rasgavam o céu em voos rasantes enquanto bombas caíam sobre a cidade.
O planeta fervia. Um caldeirão de guerras. De leste a oeste, a terra ardia.
As explosões pareciam fogos de artifício celebrando uma festa macabra. Pessoas corriam em todas as direções. Gritos, sirenes, tiros de canhão.
Redes de televisão, rádios e jornais disputavam as imagens como se travassem sua própria guerra para aprisionar os fatos.
Corri também.
Corri de medo.
Quando finalmente encontrei abrigo, respirei fundo.
Ainda confuso, percebi algo estranho.
Eu estava em casa.
Debaixo do meu próprio telhado.
Não tentei entender.
Apenas senti uma velha sensação conhecida: fome.
Mas, em vez de ir até a cozinha, sentei-me diante do computador.
Algumas histórias precisam ser contadas antes que o mundo esqueça que o universo sabe viver em paz — e nós não.


