Não era a primeira vez

Naquele dia no litoral, paramos o carro e caminhamos por muito tempo. A areia fina cedia sob os pés e as marolas ritmadas do mar pareciam marcar o compasso de alguma coisa que ainda não sabíamos.

Algumas gaivotas nos observavam. Em certos momentos, desciam baixo demais, como se quisessem nos reconhecer.

De mãos dadas, dissemos — sem combinar — que nunca mais iríamos nos separar.

Para todos os lados que olhávamos, a natureza parecia nos acolher com uma intimidade estranha. Árvores nativas, coqueiros, o verde quase excessivo. Havia ali um silêncio que não era vazio — era como se alguém estivesse escutando.

Nosso amigo caiçara nos levou para um passeio em sua jangada. Você ria muito. E eu ria junto, sem saber exatamente do quê. Ríamos como quem se lembra de algo que ainda não aconteceu.

Mergulhamos algumas vezes. A água estava morna demais para aquela hora do dia.

Em algum momento — não sei quando — começamos a perceber que estávamos ali havia tempo demais.

Mas isso não incomodava.

O tempo, ali, parecia não ter utilidade.

Era o nosso lugar há décadas, ou talvez desde sempre. Na nossa cabeça, ninguém mais o conhecia. Às vezes eu tinha a impressão de que ele só existia quando estávamos ali.

A cidade ficou distante muito rápido. Não apenas no espaço.

Paletós, gravatas, saltos altos, reuniões — tudo isso perdeu consistência, como lembranças mal guardadas.

Desta vez, não voltamos para o carro.

Não lembro exatamente quando decidimos isso.

Talvez não tenhamos decidido.

A jangada já estava lá.

Trocamos algumas coisas, ou achamos que trocamos. Ficamos com quase nada. Em algum momento, percebemos que nem precisávamos de roupa.

O vento começou sem aviso.

Primeiro leve, depois contínuo.

Aos poucos, o continente se afastava. Ou éramos nós que nos afastávamos dele — não sei.

Lá longe, tudo ficava menor: a praia, os coqueiros, as montanhas… e certas lembranças que já não faziam muita diferença.

Você me olhou sorrindo.

Foi quando o vento levou o que ainda cobria nossos corpos.

Nenhum de nós tentou segurar.

Havia algo de definitivo naquele gesto, como se aquilo já tivesse acontecido antes.

Olhei para trás.

Não havia mais nada.

Nem mesmo a linha da costa.

Só o mar.

E nós.

— Você também tem a impressão de que já fizemos isso antes? — você perguntou.

Não respondi.

Porque, naquele instante, tive certeza de duas coisas:

Nunca voltaríamos.

E, de algum modo difícil de explicar, já não era a primeira vez.

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