Carnaval: alienação social ou expressão cultural legítima do povo?

Carnaval x Pão e Circo

Existe uma parte da elite brasileira à qual compete, repetidamente, conceituar o Carnaval como mero mecanismo de opressão estatal. Dentre suas interpretações, afirmam que o brasileiro participante da festa se esquiva dos problemas centrais que modelam a conjuntura política do país em troca de migalhas de felicidade, acompanhadas de certas pílulas de futilidade.

Pois bem! Não é incomum se deparar com algum pseudo-erudito fomentador dessas ideias. Algumas pessoas fazem questão de subjugar uma manifestação popular com mais de três séculos de história com argumentos que não servem nem para puxar assunto.

Vejam.

O antigo Império Romano estabeleceu mecanismos específicos para agradar a população plebéia, mantendo-a alienada. Faziam isso por meio da promoção de grandes eventos que entretinham o povo, com a distribuição de pão e trigo. O método era objetivo: possuía a intenção primária de obter aprovação popular, desviar a atenção dos problemas pertinentes da época e manter a população alheia à política.

Diferentemente do que pretendiam os imperadores do antigo Império, aqui o Carnaval emerge de baixo para cima, e não o contrário. O povo é o principal ator — o dono da festa. Por isso, há uma enorme diferença entre uma política de Estado verticalizada e uma festa que tem, por concepção lógica, a ida do povo às ruas de forma democrática, como bem entende, respeitando suas singularidades de maneira pluralista.

Além disso, reduzindo a discussão a uma forma que os críticos de sofá compreendam: como seria possível usar essa festa como instrumento de opressão estatal quando se pode assistir, neste ano, ao desfile de uma escola de samba (Beija-Flor de Nilópolis) ecoando um samba-enredo que brada: “Cantando, saudamos a nossa fé / Às nações do Candomblé / Onde a paz e o respeito / Ressoam no couro do axé Funfun / Não tememos ataque algum / A rua ocupamos por direito…”? Ou lembrar da vez em que essa mesma escola desfilou com o Cristo Redentor vestido de mendigo, proibido de se apresentar, com a seguinte frase estampada: “Mesmo proibido, olhai por nós”, desafiando a Igreja e o Estado?

Sem deixar de mencionar a apoteótica noite da Acadêmicos do Salgueiro, no Carnaval de 1993, “explodindo o coração” ao cantar o fenômeno social da migração interna? Poderia relatar aqui, se assim fosse o caso, outras mensagens (e são muitas) trazidas pelo carnaval do Rio de Janeiro, com seus repertórios pautados na luta cultural e racial.

Lembre-se de como se comporta o Carnaval de Recife, que historicamente é um espaço de resistência e crítica social, onde o maracatu, o frevo e os blocos líricos se misturam a manifestações políticas, mantendo acesa a cultura da resistência, com protestos contra ditaduras, escândalos de corrupção e a polarização política nacional.

Sem deixar de mencionar o maior Carnaval de rua do país, onde há a democrática festa dos sons, com a diversificação baiana na arte: blocos de afoxé, com suas raízes na cultura iorubá; ritmos em ijexá, pagode, arrocha, axé, samba de roda e afins. E aqui trago Lazzo Matumbi cantando, em capela, no Pelourinho, a música 14 de Maio, de sua autoria: “Mas minha alma resiste, o meu corpo é de luta / Eu sei o que é bom, e o que é bom também deve ser meu / A coisa mais certa tem que ser a coisa mais justa / Eu sou o que sou, pois agora eu sei quem sou eu / Será que deu pra entender a mensagem? / Se ligue no Ilê Aiyê”.

Isto é, nitidamente, cultura produzida pelo povo e para o povo, e por essa própria natureza crítica, jamais seria tolerada pelo Império Romano, pois confronta exatamente aquilo que se pretendia silenciar: a denúncia das mazelas, a exposição das injustiças e a inquietação diante das estruturas de poder.

Por isso, ainda que saibamos que há um estado de coisas propagado institucionalmente com o intuito de administrar e precificar as massas no Brasil, ainda é possível identificar o povo nas ruas de forma livre e democrática, resistindo. Porque, por fim, o Carnaval é a diversidade brasileira cantando e brincando nas ruas — não um argumento vazio, repleto de preconceitos fundamentalistas ultrapassados.

Referências

BLOCO de carnaval no Recife faz crítica social e fortalece luta pelo direito à moradia. FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. Disponível em: https://fase.org.br/pt/noticias/bloco-de-carnaval-no-recife-faz-critica-social-e-fortalece-luta-pelo-direito-a-moradia/. Acesso em: 16 fev. 2026.

DINIZ, Augusto. Carnaval não é só espaço de festa, mas de reflexão cultural e política. CartaCapital, São Paulo, 2026. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/augusto-diniz/carnaval-nao-e-so-espaco-de-festa-mas-de-reflexao-cultural-e-politica/. Acesso em: 16 fev. 2026.

G1. Beija-Flor 2026: veja o enredo e cante o samba. G1 Rio de Janeiro, 2 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2026/noticia/2026/02/02/beija-flor-2026-veja-o-enredo-e-cante-o-samba.ghtml. Acesso em: 17 fev. 2026.

HISTÓRIA e origem do Carnaval. Toda Matéria. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/historia-e-origem-do-carnaval/. Acesso em: 16 fev. 2026.

MATUMBI, Lazzo. 14 de Maio [letra da música]. Disponível em: https://www.letras.mus.br/lazzo-matumbi/14-de-maio/. Acesso em: 17 fev. 2026.

PAI PAULO DE OXALÁ. Como nasceram os blocos de afoxé no Brasil. Extra, 2026. Disponível em: https://extra.globo.com/blogs/pai-paulo-de-oxala/post/2026/02/como-nasceram-os-blocos-de-afoxe-no-brasil.ghtml. Acesso em: 16 fev. 2026.

PÃO e circo em Roma. Escola – UOL. Disponível em: https://escolakids.uol.com.br/historia/pao-e-circo-em-roma.htm. Acesso em: 16 fev. 2026.

Luan de Santana
Luan de Santana
Graduando em Direito com foco em teoria social e política.

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