Segundo a OTA, Associação da Indústria Americana de Orgânicos, tarifas adicionais podem superar US$ 85 milhões e pressionar preços ao consumidor
A decisão do governo dos Estados Unidos de eliminar a Specialty Sugar Quota — mecanismo que permitia a importação de açúcar orgânico com tarifa reduzida — e de impor uma tarifa adicional de 50% sobre o produto importado ameaça a indústria americana de alimentos orgânicos e rompe uma cadeia de abastecimento construída ao longo de três décadas com o Brasil.
Com as novas medidas, a tarifa total aplicada ao açúcar orgânico brasileiro que entra nos EUA passa a ser de 100%. Estudo da Organic Trade Association (OTA), entidade que representa a indústria de orgânicos no país, estima que a decisão pode gerar mais de US$ 85 milhões em taxação adicional paga pelo setor, com impacto direto sobre custos de produção e preços ao consumidor.
O efeito prático é imediato. O açúcar orgânico utilizado pela indústria americana passou a custar cerca de US$ 1.350 por tonelada, enquanto o açúcar convencional produzido nos Estados Unidos é comercializado ao redor de US$ 600 por tonelada — uma diferença extrema entre dois produtos distintos, regulados por sistemas produtivos incomparáveis.
O Brasil responde hoje pela maior parte do açúcar orgânico importado pelos Estados Unidos e sustenta uma cadeia agrícola dedicada e rastreável, estruturada especificamente para atender às exigências do selo USDA Organic, certificação oficial do governo americano. A eliminação da cota especial desorganiza esse arranjo produtivo, compromete a previsibilidade das exportações e afeta investimentos feitos ao longo de décadas para atender à demanda americana.
“Distorção de mercado”
Para Leontino Balbo Jr., vice-presidente da Native — uma das principais produtoras globais de açúcar orgânico — a nova tarifa de 100% gera uma distorção no funcionamento do mercado.
“Não se trata de uma disputa tarifária pontual ou de um pleito de exportadores”, afirma. “O açúcar orgânico é um insumo estrutural, sem substituto, em um mercado em que a produção doméstica é insuficiente. Ao elevar abruptamente o custo desse ingrediente, a política transfere pressão para a indústria americana e, no fim da linha, para o consumidor.”
Cadeia histórica construída com o Brasil
Foi justamente a limitação da oferta interna que, nos anos 1990, levou a indústria americana de orgânicos a buscar fornecedores fora do país. Em 1994, representantes da então nascente indústria de alimentos orgânicos dos Estados Unidos chegaram ao interior de São Paulo com um impasse concreto: havia leite orgânico, grãos orgânicos e frutas orgânicas, mas faltava açúcar orgânico para a formulação de iogurtes, sorvetes, cereais matinais e outras categorias em rápida expansão.
A Native decidiu atender a essa demanda e iniciou a conversão de fazendas para manejo orgânico, redesenhou sua usina para processar exclusivamente açúcar orgânico e, em 1997, colheu o primeiro lote certificado, com 1.600 toneladas.
No ano seguinte, a produção já havia dobrado, acompanhando a expansão do consumo americano. Ao longo das duas décadas seguintes, usinas brasileiras responderam por cerca de metade de todo o açúcar orgânico utilizado pela indústria de alimentos orgânicos nos Estados Unidos.
No mesmo período, o Paraguai reduziu sua produção, a Colômbia encolheu de três usinas para uma e a Argentina não expandiu capacidade relevante.
“O único país que efetivamente investiu para sustentar o crescimento dessa indústria foi o Brasil”, afirma Balbo.
Impacto social e lacuna diplomática
Outra consequência grave da instabilidade regulatória é o desmonte de uma cadeia intensiva em emprego. O modelo de produção de cana orgânica gera até 20 vezes mais postos de trabalho do que o sistema convencional.
“Retroceder a um patamar de produção de 20 anos atrás significaria demitir uma massa expressiva de trabalhadores”, diz Balbo. “Estamos falando de um impacto social real, construído ao longo de décadas.”
Para a empresa, o impasse também revela uma lacuna diplomática.
“Durante as negociações, só se falou em carne, café e suco de laranja. Até hoje não sabemos se o açúcar orgânico está sequer incluído na pauta”, afirma o executivo. “Ninguém nos procurou para explicar os impactos dessa tarifa distorcida.”
A tarifa incide sobre um projeto reconhecido internacionalmente por padrões de sustentabilidade acima dos exigidos nos grandes fóruns globais, com reconhecimento do Boston Consulting Group e do World Economic Forum no programa Champions of Sustainability, menções da Ellen MacArthur Foundation e seleção pela Organização das Nações Unidas no programa Biodiversity in Good Company.
Mercado em expansão sob risco
A decisão do governo americano ocorre em um momento de aceleração do mercado de orgânicos. Segundo a OTA, as vendas de produtos orgânicos nos Estados Unidos cresceram 5,2% em 2024 — mais que o dobro do ritmo do mercado total, de 2,5% — e alcançaram US$ 71,6 bilhões.
Esse crescimento se apoia em um conjunto restrito de insumos regulados, entre eles o açúcar certificado, classificado como ingrediente estrutural e sem substituto. A OTA alerta que o choque simultâneo de custo e oferta não afeta apenas um produto, mas categorias inteiras do setor, como cereais, snacks, chocolates, bebidas e alimentos infantis, com risco de redução de portfólio e descontinuação de linhas.
Segundo a Native, clientes da indústria americana de orgânicos já vêm sinalizando os efeitos da medida. Muitos suspenderam planos de expansão e alguns, que estavam em processo de construção de novas fábricas, reavaliam investimentos diante da incerteza sobre fornecimento e custos.
“É uma contradição de política pública. Um mercado que acelera passa a ser tratado como se pudesse absorver uma ruptura de insumo”, diz Balbo.
Reflexos no Brasil e apelo por correção
Para o Brasil, o impacto se manifesta do outro lado da cadeia. A instabilidade regulatória compromete a previsibilidade das exportações, trava decisões de investimento e desorganiza o sistema produtivo.
“Quando uma política ignora a realidade da oferta, o impacto não fica restrito à fronteira. Ele desmonta um arranjo que sustentou o crescimento do próprio mercado por décadas”, afirma Balbo.
“O governo americano não está protegendo ninguém do nosso setor. Trata-se de uma distorção que prejudica mais a própria indústria americana do que os fornecedores externos. Se isso for explicado com clareza pelas autoridades brasileiras, a situação pode ser corrigida rapidamente.”
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