O Pequeno Manual Antirracista, lançado em 2019 pela Companhia das Letras e vencedor do Prêmio Jabuti em Ciências Humanas em 2020, surge como um ensaio acessível da filósofa Djamila Ribeiro para desmascarar o racismo estrutural no Brasil. Com 136 páginas divididas em dez capítulos imperativos, como “Informe-se sobre o racismo” e “Combata a violência racial”, a obra propõe estratégias práticas para combater desigualdades enraizadas no passado escravocrata brasileiro, questionando mitos como a democracia racial e a meritocracia. Inspirado em How to Be an Antiracist de Ibram X. Kendi, o livro ganhou projeção em 2020 com o movimento Black Lives Matter e casos como George Floyd e João Alberto, impulsionando suas vendas na Amazon.
Djamila Ribeiro acerta ao enfatizar o letramento racial e a necessidade de reconhecer privilégios da branquitude, argumentando que todos crescemos em uma sociedade racista e internalizamos preconceitos, mesmo sem intenção explícita. Ela destaca ausências gritantes, como a superlotação carcerária negra ou a escassez de negros em posições de poder, e defende ações como políticas afirmativas, leitura de autores negros e questionamento da cultura consumida. Essa abordagem didática torna o manual urgente para educadores, empresas e famílias, promovendo empoderamento da negritude e interseccionalidade com gênero e classe.
Contudo, a estrutura imperativa soa mais como ordens do que convite ao diálogo profundo, simplificando fenômenos históricos complexos, como a Lei de Terras de 1850 ou a cidadania no Império, sem nuance para imigrantes brancos pobres ou resistências variadas. Críticas apontam desconhecimento em detalhes históricos, priorizando experiências pessoais sobre análise rigorosa, o que enfraquece argumentos ao rotular tudo como “racista” sem espaço para contraponto. Em um país de desigualdades multifacetadas, essa visão binária arrisca polarizar em vez de unir, ignorando avanços como cotas universitárias que já transformam realidades sem depender unicamente de “branquitude culpada”.
O livro permanece essencial para iniciar conversas sobre racismo recreativo e violência cultural, mas exige complemento com obras como Racismo Estrutural de Silvio Almeida para equilíbrio. Sua popularidade reflete fome por justiça racial, mas o verdadeiro antirracismo demanda debate aberto, não manuais prescritivos. No Brasil de 2026, com tensões políticas crescentes, ele nos lembra que reflexão coletiva supera dogmas, construindo uma sociedade onde cor não dita destino.


