Dica de Leitura: “Lugar de Fala”, de Djamila Ribeiro – Vozes Subalternas em Busca de Existência

O livro “Lugar de Fala”, de Djamila Ribeiro, lançado em 2017 como o primeiro volume da coleção Feminismos Plurais, surge como um manifesto urgente contra o silenciamento histórico imposto a mulheres negras em uma sociedade marcada por desigualdades raciais e de gênero. Nele, a autora, filósofa e militante, defende o conceito de “lugar de fala” não como privilégio identitário, mas como direito estrutural de grupos subalternizados a romperem com a autorização discursiva branca, masculina e heteronormativa, permitindo que vozes excluídas contribuam para novos projetos civilizatórios. Inspirada em pensadoras como Sojourner Truth, Lélia Gonzalez, bell hooks e Patricia Hill Collins, Ribeiro ilustra como o feminismo negro amplia horizontes ao interseccionar raça, gênero, classe e sexualidade, expondo opressões entrecruzadas que o feminismo hegemônico branco ignorou por séculos.​

Essa obra ressoa profundamente no Brasil contemporâneo, onde o racismo estrutural e o sexismo persistem em espaços de poder, como universidades, mídia e política, negando protagonismo a corpos negros femininos. Ribeiro argumenta que o “lugar de fala” emerge da militância coletiva, transformando experiências de marginalidade em resistência e reexistência, como exemplificado pela indignação de Sojourner Truth em 1851: “E não sou uma mulher? Olhem para meu braço!”. Ao citar Sueli Carneiro e Audre Lorde, a autora desmonta mitos da fragilidade feminina reservada às brancas, revelando como mulheres negras sempre trabalharam nas ruas, sem o luxo de “ganhar as ruas” como slogan feminista, pois isso define sua existência precária. Essa perspectiva decolonial não busca vitimismo, mas visibiliza como a ausência de epistemologias negras perpetua hierarquias violentas, impedindo uma cidadania plena.​

Contudo, o conceito de “lugar de fala” proposto por Ribeiro enfrenta críticas legítimas por seu viés reformista, que se limita a pleitear inclusão em instituições capitalistas e coloniais sem questionar suas bases profundas. Críticos apontam que a ênfase em narrativas identitárias elide contradições de classe e condições objetivas de exploração, reduzindo o racismo a uma questão moral passível de correção por “escuta” e quotas, em vez de revolução estrutural. Embora Ribeiro negue que o conceito silence outros ou ignore classe, sua aplicação prática muitas vezes gera disputas antagônicas, onde vozes não-negras são deslegitimadas em debates sobre negritude, fomentando uma lógica excludente disfarçada de empoderamento. Essa tensão revela um limite: o livro brilha na denúncia, mas peca ao não transcender o horizonte liberal, propondo nichos de visibilidade em vez de desmantelar o sistema que os nega.​

Em última análise, “Lugar de Fala” permanece essencial para compreender como discursos autorizados perpetuam apagamentos, convidando a uma reflexão coletiva sobre quem define a humanidade no Brasil. Sua força reside na afirmação de que falar não é mero ato verbal, mas garantia de existência política para os historicamente silenciados. No entanto, para avançar além do incômodo gerado em privilegiados, o feminismo negro precisa aliar-se a lutas anticapitalistas, evitando que o “lugar de fala” se torne outro instrumento de divisão em vez de transformação radical. Ribeiro acerta ao ampliar o feminismo, mas o debate exige mais: romper regimes discursivos exige, também, romper estruturas econômicas que os sustentam.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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