O livro Sobre o autoritarismo brasileiro, de Lilia Moritz Schwarcz, desmascara a mitologia nacional de um Brasil tolerante e acolhedor, revelando as raízes históricas profundas de um autoritarismo que permeia cinco séculos de nossa trajetória. Publicado pela Companhia das Letras em 2019, a obra da historiadora examina temas como escravidão, racismo, mandonismo, patrimonialismo, corrupção, desigualdade social, violência, raça, gênero e intolerância, mostrando como essas fissuras estruturais moldam o presente. Schwarcz argumenta que o fenômeno não se limita a regimes ditatoriais específicos, mas constitui um traço cultural e social enraizado na colonização portuguesa e na escravidão, perpetuado por lógicas de dominação que naturalizam a exclusão.
Desde o período colonial, o Brasil construiu hierarquias rígidas baseadas na opressão e no “jeitinho brasileiro”, que mascarava abusos de poder e desigualdades gritantes. A autora destaca o coronelismo na República Velha, o voto de cabresto e práticas oligárquicas que sobrevivem em “bancadas dos parentes” e no patrimonialismo atual, onde o público se confunde com o privado. Esses elementos explicam por que, apesar de constituições progressistas como as de 1934 e 1988, persistem legados de mando e obediência que minam a igualdade jurídica e fomentam a violência cotidiana.
No contexto contemporâneo, especialmente após eventos como o impeachment de 2016 e o governo Bolsonaro, o livro ganha urgência ao alertar para novas ondas autoritárias disfarçadas de populismo ou ultraliberalismo. Schwarcz enfatiza a resistência democrática histórica, mas cobra uma agenda inclusiva que combata a obediência cega a líderes, a repressão a dissidências e a negação do racismo estrutural. Em 2026, com polarizações persistentes, sua análise reforça que ignorar esses “fantasmas do presente” perpetua uma nação excludente, distante de uma cidadania plena.
A força da obra reside na combinação de dados estatísticos, análise antropológica e histórica, sem simplificações, convidando à reflexão crítica sobre educação, memória e diversidade como antídotos ao retrocesso. Schwarcz não oferece soluções prontas, mas expõe as permanências que explicam nossa dificuldade em ser inclusivos. Ler esse livro é essencial para quem busca compreender por que o Brasil, apesar de avanços, ainda patina em intolerâncias e desigualdades que demandam ação coletiva urgente.


