Há algo de perturbadoramente familiar em Apocalipse nos Trópicos, como se o filme não mostrasse o Brasil, mas um espelho ampliado de nossas piores tentações políticas e espirituais. Lançado originalmente em 2024, dirigido por Petra Costa, o documentário acompanha a ascensão e a consolidação da influência do movimento evangélico na política brasileira ao longo da última década, costurando imagens de cultos, plenários, bastidores de poder e discursos inflamados que parecem sempre flertar com o fim dos tempos, mas que, no fundo, falam de desejo muito terreno por poder e controle. Com pouco menos de duas horas, o longa circulou pelos grandes festivais internacionais, como Veneza 2024, e hoje está disponível no catálogo da Netflix no Brasil, depois de breve passagem por salas de cinema em São Paulo e Rio de Janeiro.
O filme se estrutura como um mosaico de testemunhos e confrontos simbólicos, colocando lado a lado figuras como Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia, todos falando em nome de uma verdade maior, todos reivindicando algum tipo de legitimidade moral ou histórica. Petra Costa, que já havia explorado a crise democrática em Democracia em Vertigem, volta a narrar em primeira pessoa, mas aqui com um tom ainda mais melancólico, como se testemunhasse não apenas o desgaste de instituições, e sim a lenta substituição de uma democracia frágil por uma teocracia difusa, sem nome oficial, mas com enorme poder de veto sobre corpos, desejos e políticas públicas. A pergunta que atravessa o filme é simples e devastadora: quando uma democracia termina e quando uma teocracia começa ou será que já começamos a chamar de “vontade do povo” aquilo que, no fundo, é vontade de poucos púlpitos superpoderosos.
Há um mérito estético e político particular na forma como o documentário filma os templos e os palanques como se fossem o mesmo espaço sagrado, apenas com microfones de formatos distintos. O enquadramento insistente em mãos erguidas, olhos fechados, lágrimas e bandeiras revela a fusão entre culto e campanha, entre oração e comício: tudo é espetáculo, tudo é liturgia de adesão, tudo é coreografia de fé e medo. Esse gesto visual cria uma espécie de teologia da imagem política, na qual a cruz e a bandeira não apenas convivem, mas se tornam indissociáveis, inaugurando uma forma de nacionalismo devocional que transforma qualquer discordância em blasfêmia, qualquer crítica em perseguição espiritual, qualquer divergência em guerra do bem contra o mal.
As reflexões que o filme provoca são menos confortáveis que qualquer debate raso sobre “laicidade do Estado”. O documentário expõe o modo como a retórica apocalíptica serve como tecnologia de governo a cada vez que se diz que o mundo está à beira do colapso, que a família está sob ataque, que Deus foi expulso da escola e do Parlamento, cria-se um clima de urgência que justifica o excepcional, o autoritário, o intolerante. A promessa do fim do mundo funciona como cheque em branco assinado pela população com medo, entregue a líderes que falam em nome de Deus, mas negociam em nome de bancadas, verbas, emendas, cargos e blindagens jurídicas extremamente concretas.
O filme também sugere, de modo sutil, que o apocalipse verdadeiro não é o que está nas profecias bíblicas, mas aquele que se insinua no esvaziamento da política como espaço de conflito racional, substituída por uma guerra santa permanente. Quando o debate público se converte em batalha espiritual, partidos viram seitas e cidadãos viram fiéis, cada vez menos dispostos a negociar, reconhecer o outro, admitir a complexidade do mundo. A democracia, que depende de concessões, ambiguidades, dúvidas e procedimentos, não resiste por muito tempo ao delírio de certeza absoluta alimentado por pastores midiáticos e líderes populistas que se retroalimentam em um círculo de legitimação mútua.
O aspecto mais provocativo de Apocalipse nos Trópicos está na maneira como ele nos obriga a admitir que o problema não é “dos evangélicos”, mas de uma sociedade que, diante do medo e da frustração, terceiriza a própria responsabilidade política em troca de segurança espiritual. Não são apenas os púlpitos que elegem presidentes, governadores e parlamentares, é o desejo de ser tutelado, de ouvir uma voz que diga o que é certo, o que é errado, quem é o inimigo do dia, quem merece ser salvo ou linchado em nome da moral. Nesse sentido, o filme incomoda porque nos recusa o conforto da superioridade laica e progressista lembra que o apocalipse nos trópicos também se alimenta da nossa preguiça de disputar corações e mentes, de ocupar territórios simbólicos que foram abandonados e entregues de bandeja ao fundamentalismo.
Há, ainda, uma dimensão íntima na narrativa: a diretora revisita imagens de sua própria trajetória e da história recente do país, como se estivesse tentando entender em que momento o sonho de uma democracia plural se converteu nessa névoa densa de ressentimento e culpa coletiva. Em vez de oferecer respostas fáceis, o filme propõe um luto político radical, quase religioso, pedindo que se reconheça a morte de um certo Brasil para que talvez outro possa nascer além do fetiche dos salvadores ungidos e das promessas de prosperidade instantânea em troca de obediência irrestrita.
Apocalipse nos Trópicos é, ao mesmo tempo, espelho e profecia, diagnóstico e aviso, documento histórico e fábula sombria sobre o tipo de país que insistimos em construir quando misturamos fé com sede de poder e chamamos esse coquetel de destino nacional. Não é um filme confortável, nem neutro, nem conciliador, e justamente por isso se torna peça indispensável para pensar o Brasil contemporâneo, seus medos, seus delírios messiânicos e sua incapacidade crônica de lidar com a diferença sem transformá-la em inimigo espiritual.
Nota: 9,0/10.

