Guillermo del Toro ressuscita o mito de Mary Shelley em uma tapeçaria gótica de luzes frias e sombras profundas, onde o gelo ártico reflete não só o caos da criação, mas a solidão inescapável do ser. Oscar Isaac encarna Victor Frankenstein, o cirurgião arrogante obcecado por domar a morte, enquanto Jacob Elordi dá vida à Criatura, uma figura de força bruta e anseio infantil que desperta empatia em meio ao horror. Lançado em 2025 após estreia em Veneza, o filme chegou aos cinemas limitados em outubro e globalmente à Netflix em novembro, plataforma exclusiva que amplifica sua visão épica de 150 minutos.
A narrativa entrelaça o relato de Victor, marcado por uma infância de perdas e ambição desmedida, com a odisseia da Criatura, que aprende linguagem e compaixão em uma cabana isolada, só para enfrentar rejeição brutal. Del Toro infunde lirismo ao romance sombrio de Shelley, com visuais inspirados em Bernie Wrightson e influências de Paraíso Perdido, transformando o monstro em Prometeu moderno, vítima de um deus falho. Mia Goth brilha como Elizabeth, ponte de ternura em um mundo de violência, enquanto Christoph Waltz adiciona camadas de cinismo como o financista Harlander.
Em tempos de avanços científicos desenfreados, Frankenstein (2025) questiona os limites da hybris humana, ecoando debates sobre IA e bioengenharia: quem responde pela vida fabricada quando o criador a abandona? A reconciliação final entre “pai” e “filho” no gelo sugere redenção possível, mas o abraço solitário da Criatura ao sol revela a eternidade da exclusão social. Del Toro não aterroriza; ele comove, convidando-nos a ver no “monstro” o reflexo de nossas próprias criações rejeitadas pela sociedade.
Nota: 9/10


