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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dica de Série: “Stranger Things” – quando a nostalgia encontra o medo no coração dos anos 80

Stranger Things é, antes de qualquer rótulo de ficção científica ou terror, uma carta de amor à adolescência e ao imaginário dos anos 80, escrita com tinta neon, bicicletas em ruas vazias e um governo que esconde monstros no subsolo enquanto famílias tentam apenas sobreviver ao próprio cotidiano. Ambientada a partir de 1983 na pequena e fictícia Hawkins, Indiana, a série acompanha um grupo de crianças e jovens que precisam enfrentar desaparecimentos, experimentos secretos e criaturas vindas de uma fenda entre mundos, o Mundo Invertido, enquanto descobrem o peso da amizade, do luto e da responsabilidade. Lançada em 2016, criada pelos irmãos Duffer e disponível na Netflix, ela cresceu temporada após temporada até chegar à quinta e última leva de episódios, que estreou em novembro de 2025 e se encerrou na noite de 31 de dezembro do mesmo ano, fechando um ciclo que já nasceu clássico no streaming.​

Há um fascínio quase táctil na forma como Stranger Things reconstrói os anos 80, não apenas como cenário, mas como estado de espírito, fazendo com que cada papel de parede desbotado, cada fliperama barulhento e cada walkie-talkie pesado funcionem como portais sensoriais para uma época em que a tecnologia ainda não mediava todas as relações. O figurino, com jeans surrados, jaquetas bomber, camisetas de bandas e cortes de cabelo que vão do mullet à rebeldia desgrenhada, cria uma estética que não é paródia, mas homenagem afetiva a um tempo em que os jovens ainda podiam se perder na rua sem GPS e encontrar monstros metafóricos e literais na beira do bosque. O mais elegante, porém, é perceber que essa ambientação não é cosmética: a própria trama só funciona porque é um mundo sem celulares, sem redes sociais, em que o sumiço de um garoto vira boato de bar, conversa de igreja, investigação de delegacia pequena, e não apenas notificação em tela.​

A trilha sonora, talvez o elemento mais visceral da série, costura essa nostalgia com precisão de cirurgião e sensibilidade de DJ de fita cassete, que rebobina o tempo com cada faixa escolhida. Desde a primeira temporada, a mistura de sintetizadores com canções emblemáticas dos anos 80 dá o tom da experiência, transformando músicas como Should I Stay or Should I Go, do The Clash, em leitmotiv da angústia de Will e de sua família, enquanto Time After Time, de Cyndi Lauper, aparece como fundo melódico para o amadurecimento afetivo de Eleven, que enfim experimenta um pouco de normalidade em meio ao trauma. Já na temporada final, o repertório continua a operar como narrativa paralela, evocando ABBA, Kate Bush, clássicos do rock e baladas melancólicas para sublinhar despedidas, reconciliações e o peso da escolha entre sacrificar o que se ama ou permitir que o mal se espalhe, culminando em um último episódio em que cada música parece escolhida para acompanhar uma despedida silenciosa do público à própria adolescência.​

Assistir Stranger Things é também aceitar o pacto com a nostalgia como construção política da memória, especialmente para quem não viveu os anos 80, mas foi educado pelas suas sobras culturais, de E.T. a Os Goonies, da ficção científica paranoica aos filmes de aventura infantil. A série funciona como museu animado da cultura pop da época, repleto de referências visuais e narrativas, mas não se limita a piscadelas cúmplices, transformando esse repertório em matéria-prima para discutir medo, controle estatal, experiências em laboratório e a precariedade das famílias operárias numa cidade que serve de palco para experimentos de uma elite invisível. Há, ali, uma nostalgia que não é ingênua: por trás das luzes de Natal piscando no alfabeto improvisado de Joyce, há uma crítica à forma como governos instrumentalizam cidades pequenas e corpos vulneráveis, e como a infância é constantemente atravessada por segredos que vêm de cima, com vocabulário burocrático e consequências monstruosas.​

O desfecho da série, consolidado na quinta temporada lançada em três partes entre novembro e dezembro de 2025, assume a difícil tarefa de fechar não apenas uma narrativa de monstros e portais, mas um rito de passagem coletivo entre personagens e espectadores. Conforme os episódios finais avançam, Hawkins deixa de ser apenas cenário e se torna campo de batalha definitivo, onde o Mundo Invertido ameaça colapsar sobre a realidade, obrigando o grupo a confrontar perdas acumuladas, culpas antigas e a inevitabilidade de crescer sob o trauma. A conclusão encontra um equilíbrio entre o épico e o íntimo, oferecendo momentos de sacrifício e heroísmo que não apagam as cicatrizes, mas as ressignificam, e encerrando a jornada com a sensação de que, embora o mal tenha sido contido, nada volta exatamente a ser como antes, como acontece com qualquer adolescência que sobrevive ao seu próprio Mundo Invertido interior.​

Stranger Things, portanto, é menos uma simples série de terror juvenil e mais um grande romance audiovisual sobre crescer entre segredos de Estado, monstros metafísicos e famílias em ruína, embalado por um repertório musical que devolveu aos anos 80 o lugar de fonte afetiva para novas gerações e não apenas de curiosidade vintage. É uma obra que abraça a cultura pop sem culpa, a transforma em ferramenta dramática e mostra que a nostalgia pode ser crítica e ter dentes, sem deixar de ser prazerosa, colorida e dançante, como uma playlist que passa de The Clash a Madonna enquanto a cidade desaba ao fundo.​

Nota: 9,5 de 10.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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