“A Bailarina”, lançado em 2025, é uma fascinante peça de dança ao som dos choques metálicos tão característicos do universo John Wick. Entre arabescos ensanguentados, a vingança transforma a protagonista em um corpo moldado pela tradição da Ruska Roma, um balé de brutalidade e desejo de justiça. Ana de Armas desenha na tela sua personagem, Eve Macarro, com linhas de dor herdada, filha do infortúnio erguido pelos destinos cruzados de assassinos e cultistas. Sob a direção de Len Wiseman, a câmera ensaia movimentos elegantes, sóbrios, que contrastam com a selvageria ritmada dos combates, enquanto Eve é treinada para transformar gestos sutis em armas fatais.
Inserido entre o terceiro e o quarto capítulos da saga John Wick, o filme recusa a escapatória do previsível: nas mãos da Diretora, vivida por Anjelica Huston, o balé deixa de ser abrigo e se revela escola para a guerra, palco de coreografias onde saltos são golpes e pliés escondem a promessa da morte. Ao lado de Ana, nomes como Gabriel Byrne, Ian McShane, Norman Reedus e Keanu Reeves emprestam à narrativa uma aura quase mítica, como se todos ensaiassem juntos uma dança pelo abismo, entre luzes filtradas e sombras tão densas quanto a torção do destino que persegue Eve desde a infância.
O drama da protagonista, forçada a abandonar o lar e talhada desde cedo pelo aço e pela disciplina, encontra ecos recorrentes na própria arte que dá título ao filme. A bailarina, símbolo de leveza, é aqui acorrentada à terra por traumas, cada giro um desafio ao abismo, cada salto uma negação do passado. Não há respiro inocente na poética da violência: ao buscar vingança sobre o culto que destruiu sua família, Eve descobre, como em toda boa tragédia, que as cicatrizes não cessam ao se impor novas feridas, e a redenção está além das etapas do enredo, perdida entre a pulsação do desejo de justiça e o silêncio que se segue à última nota do espetáculo.
Nas plataformas digitais, “A Bailarina” encontra seu palco: depois de um breve reinado nos cinemas, passa a habitar o catálogo da Amazon Prime Video, assim como outras obras do universo John Wick. Para quem prefere outro ritmo de visualização, pode ser encontrada para aluguel e compra no Google Play Filmes e Apple TV. O acesso democrático à performance não rouba seu poder de encantamento: o filme permanece uma experiência para ser degustada como se observa uma bailarina solitária sob luz opaca, rodando sem contenção diante de uma plateia ávida por cada nuance do movimento.
Refletir sobre “A Bailarina” é também pensar sobre os limites do sofrimento estético, sobre a linha tênue entre beleza e destruição, sobre o corpo moldado tanto pela disciplina do balé quanto pela necessidade de sobreviver a um mundo sem misericórdia. É o paradoxo da arte: a delicadeza vive de costas para a barbárie, mas, às vezes, é dela também que nasce a expressão mais crua da vida. Ao final, o filme convence não só pelo virtuosismo da ação, mas pelo convite à contemplação: do sangue como tinta, do corpo como assinatura no vazio.
Nota: 8,5/10.


