Como os relacionamentos começam? Às vezes, basta um simples esbarrão. Uma topada no mercado, compras caem, eles se abaixam para pegar, batem cabeça com cabeça e lá vem romance. Mas só em filmes de Hollywood, porque no mundo real, um esbarrão vira xingamento, briga e até processo.
Alguns relacionamentos começam com uma troca de olhares, um sorriso, apresentação por amigos comuns, numa festa, viagem. A relação começa e segue seu curso até que a morte os separe, ou no padrão Avenida Paulista: começa no Paraíso e termina na Consolação.
Atualmente as pessoas se conhecem por App e checam os perfis nas redes sociais: time de futebol, corrente política, curtidas, religião, amigos comuns, hábitos alimentares. Duvida? Tente unir pessoas de times rivais, veganos e churrasqueiros, radicais de direita e esquerda, beato e ateu, globalista e terraplanista, músico e funkeiro, Q.I. acima de 35 e influenciador. É mais fácil a paz o Oriente Médio!
Tem uns romances lindos, tem os tóxicos e tem aqueles que se transformam em mera sociedade civil, com mais monotonia do que o trabalho na cabine de pedágio. Tenho um amigo que comemora o aniversário do divórcio como se fosse título da Libertadores. Também tem uns casos emblemáticos:
O namoro entre Mohamed Ali Zante e Cândida Mel parecia promissor. Sempre que ele a via, suava, gaguejava e o coração palpitava. Não sabia se era amor ou efeito colateral do hipotiroidismo. No cinema, um queria comédia romântica, dramas ou musicais e o outro filmes de guerra, terror ou pancadaria. Cândida Mel é fã de porrada e Ali Zante prefere romances, exceto se estiver passando a cinebiografia de personalidades do mundo da moda ou documentário sobre reciclagem de alumínio.
Divergiam em tudo, mas acreditavam que os opostos se atraem, até verem que isso só funciona na Física, nunca no romance. Quando ela disse que não queria mais vê-lo, nem coberto de ouro, ele se ofendeu e decidiu terminar.
Jamal Vadezza e Anna Bolly também são opostos. Ela é romântica, sonhadora, ama pintar flores, gatos e paisagens marinhas. Ele é ogro no grau máximo, mais grosso que tubulação de esgoto. Ela se ressente por ele nunca reparar na cor do esmalte combinando com os sapatos, no novo corte de cabelo ou no perfume. As amigas asseguram que, se o cara repara em tudo, lembra o nome do gato, quantas gotas de adoçante ela põe no café, ama novelas e sabe diferenciar o vermelho do carmin, escarlate, bordô, cereja, fuxia e coral, com certeza é gay.
Como nas novelas, quis o destino que um abalroamento aproximasse os casais. Mal arranhou a pintura, mas Jamal Vadezza e Cândida Mel se encararam com chave de rodas em mãos. Xingaram-se e quase partiram para as vias de fato, porém a turma do deixa disso impediu. Anna e Ali Zante os convenceram a relaxar e tomar café na Padaria.
As trocas de olhares foram inevitáveis, assim como a troca de casais. Tudo na santa paz. Para evitar recaídas, combinaram não saírem juntos, nem se visitarem. Apenas um alô nos aniversários, mas só Ali Zante e a esposa Ana Bolly Zante se lembravam das datas.
Certo dia, nem Jamal Vadezza e nem Cândida Mel atenderam o telefone. Ali e Ana foram até o apartamento deles, mas ao chegarem, a separação de corpos já estava consumada. Ele, com um tiro no peito e a mão esquerda amputada, sangrou até morrer. Cândida, fazendo jus ao nome, mantinha o semblante tranquilo, porém com a cabeça bem longe do pescoço.
Ao contrário dos filmes românticos, Ali Zante e Ana Bolly Zante também não tiveram um final feliz. O gatilho foi divergência de opiniões entre Balé e Jazz Contemporâneo, mas o rompimento foi tranquilo e o acordo de guarda compartilhada dos gatos, consensual. Como diria Vinícius de Moraes, a vida é a arte do encontro, embora haja muito desencontro pela vida. Vida que segue, juntos ou separados.


