Vivemos um momento em que a sustentabilidade se consolidou como discurso dominante nas agendas políticas, empresariais e acadêmicas. Fala-se em transição energética, neutralidade de carbono, economia circular, ESG e responsabilidade intergeracional. Governos assinam pactos climáticos, empresas divulgam relatórios de impacto socioambiental e universidades produzem pesquisas sobre os limites planetários. Porém, guerras continuam a eclodir e a se intensificar em diferentes regiões do mundo, promovendo destruição ambiental massiva, ruptura institucional, colapso social e aprofundamento das desigualdades econômicas – dor, sofrimento, perdas.
A coexistência entre guerra e o discurso da sustentabilidade revela uma contradição estrutural: enquanto preconizamos desenvolvimento sustentável, perpetuamos dinâmicas que negam seus próprios fundamentos.
Como defender a sustentabilidade se ela, por definição, deve ser global?
A sustentabilidade não pode ser fragmentada geograficamente nem aplicada de forma seletiva. O próprio conceito consagrado pela Organização das Nações Unidas – ONU ao estabelecer os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS pressupõe interdependência entre dimensões sociais, ambientais, econômicas e institucionais.
Não há sustentabilidade ambiental sem estabilidade política, bem como não há desenvolvimento econômico sustentável em cenários de destruição bélica. E justiça social quando populações inteiras são deslocadas é paradoxal, assim como quando sistemas de saúde e educação entram em colapso e quando a pobreza extrema se expande em decorrência do conflito.
A guerra, por sua própria natureza e evolução, é a negação dos fundamentos do desenvolvimento sustentável. Ela compromete diretamente o ODS 16, que trata de paz, justiça e instituições eficazes, ao corroer estruturas institucionais e enfraquecer a governança. Ao mesmo tempo, gera danos ambientais profundos e muitas vezes irreversíveis, como:
- contaminação de solos e águas por resíduos bélicos, que desprendem metais pesados e combustíveis;
- destruição de ecossistemas, florestas e áreas agrícolas;
- incêndios industriais e danos à infraestruturas energéticas;
- emissão massiva de gases de efeito estufa;
- colapso dos sistemas de saneamento;
- perda da vida humana e de animais.
Tais impactos afrontam diretamente os compromissos assumidos no âmbito dos ODS 13, 14 e 15, relacionados, respectivamente, à ação climática, à vida na água e à vida terrestre. A perda de biodiversidade decorrente de conflitos armados não respeita fronteiras, ou seja, seus efeitos ultrapassam territórios e comprometem ciclos ecológicos globais.
No campo social…
A guerra amplia desigualdades, intensifica fluxos migratórios forçados e agrava a insegurança alimentar. Recursos que poderiam ser direcionados à educação, saúde, inovação sustentável e infraestrutura resiliente são desviados para gastos militares. Economias entram em instabilidade, cadeias produtivas globais se fragmentam e mercados se tornam voláteis. A retórica do crescimento sustentável perde coerência quando bilhões são investidos na destruição e não na regeneração.
Dessa forma, rompe-se o tecido social, desencadeando deslocamentos forçados e crises humanitárias, colapso de sistemas de saúde e educação e aumento da pobreza extrema.
O resultado é a distorção das prioridades econômicas globais e o enfraquecimento do ODS 8 e ODS 9, que abordam trabalho decente e crescimento econômico e indústria, inovação e infraestrutura.
Dimensão incômoda da análise
É nesse ponto que emerge uma reflexão necessária: a hipocrisia estrutural que permeia o debate contemporâneo.
Ora…
Países que lideram discursos climáticos figuram entre os maiores produtores e exportadores de armamentos, enquanto empresas que publicam relatórios robustos de ESG participam, direta ou indiretamente, de cadeias produtivas vinculadas à indústria bélica.
Por sua vez, estados que defendem a neutralidade de carbono ampliam seus orçamentos militares, desconsiderando a pegada ambiental dessas atividades.
Sustentabilidade, nesses casos, transforma-se em narrativa estratégica, não em compromisso sistêmico.
Defender a sustentabilidade implica reconhecer sua natureza indivisível e a importância do equilíbrio ecossistêmico e da proteção à biodiversidade. Não se trata apenas de reduzir emissões de Gases de Efeito Estufa – GEE em um território enquanto se tolera a devastação em outro, ou de compensar carbono enquanto ecossistemas são destruídos por conflitos armados.
Deve-se, portanto, compreender que a sustentabilidade é um pacto global que pressupõe cooperação, estabilidade e responsabilidade compartilhada de todo um coletivo. Se, em teoria a paz é condição para o desenvolvimento, como prega a ONU, então a guerra representa a “ruptura mais evidente” do próprio conceito de sustentabilidade.
Portanto, a provocação é inevitável!
Como podemos sustentar o discurso da sustentabilidade enquanto o mundo sustenta guerras? Ou então, como podemos falar em futuro comum se o presente é marcado por destruição deliberada?
Há divergências e descompasso em diversas regiões do mundo. Se a sustentabilidade deve ser global, ela não pode coexistir de forma confortável com conflitos que corroem suas bases sociais, ambientais e institucionais. E, enquanto essa contradição não for enfrentada com coerência ética e política, a sustentabilidade permanecerá, em muitos contextos, mais próxima de um ideal retórico do que de uma prática verdadeiramente transformadora.
- Sem paz, não há desenvolvimento sustentável.
- Sem coerência ética, não há transição ecológica.
- Sem justiça, não há futuro comum.


