Com rotinas que envolvem projetos, desenvolvimento de produtos e contato com clientes, profissionais relatam como a maternidade mudou a sua relação com o trabalho
Durante muito tempo, o sucesso feminino esteve associado à escolha entre carreira e maternidade, mas esse cenário vem mudando. Cada vez mais mulheres, especialmente à frente de seus próprios negócios, mostram que é possível integrar esses dois universos, ainda que com ajustes na rotina. No setor de arquitetura e design, marcado por demandas de gestão, criação e relacionamento com clientes, mães empreendedoras vêm incorporando a maternidade ao percurso profissional, com uma busca maior por equilíbrio, flexibilidade e propósito no dia a dia.
A arquiteta Gláucia Britto viveu esse processo desde o início da carreira. “Comecei a trabalhar quando minha filha ainda era muito nova. Fui crescendo aos poucos, em uma época sem mídia digital, com menos cobrança e, felizmente, com uma rede de apoio muito boa. A maternidade me mostrou desde cedo que sucesso não é só sobre crescer profissionalmente, mas sobre conseguir equilibrar os papéis, mas sem abrir mão da própria identidade”, conta.

Juliana Cascaes e as filhas, Gabriela e Valentina – foto acervo pessoal
A trajetória da arquiteta Juliana Cascaes também reforça essa ideia – mãe aos 23 anos, ela viu a maternidade caminhar lado a lado com sua construção profissional. “Hoje, sucesso para mim é ser uma boa mãe, uma boa profissional e não me esquecer de mim mesma. A maternidade me trouxe mais propósito, mais foco e uma visão mais clara do que realmente importa.” Ela resume esse aprendizado em uma frase que atravessa a experiência de muitas mulheres: “Filho não é um empecilho, é uma motivação.”
Conciliar prazos, reuniões, obras, filhos e vida pessoal continua longe de ser simples. A sobrecarga ainda faz parte da rotina de muitas mulheres, mas redes de apoio, revisão de expectativas e novos modelos de trabalho têm ajudado a tornar esse equilíbrio mais possível.

Linda Martins – foto: Rodrigo Gonra
A designer Linda Martins conta que sua trajetória profissional nasceu junto com a maternidade. “Me formei grávida e minha trajetória sempre esteve muito conectada à maternidade.” Segundo ela, essa vivência transformou profundamente sua forma de trabalhar e se posicionar. “Essa decisão me permitiu construir uma carreira com propósito e muita verdade. A maternidade me tornou mais sensível, mais conectada com a realidade de outras mulheres e com os temas da vida”, ressalta Linda, que também é designer de interiores.

Mariana Amaral – foto: Edson Garcia
A empresária Mariana Amaral, fundadora e diretora criativa da Itens, também percebeu mudanças importantes na forma de enxergar o trabalho depois da maternidade. “Ser mãe me tornou uma profissional mais atenta, mais serena e mais sensível principalmente às questões femininas dentro do mercado de trabalho.” Para ela, o cuidado e o olhar coletivo passaram a fazer parte das escolhas profissionais. “Ser mãe é cuidar e olhar com generosidade, entrega e afeto. Isso se reflete diretamente na carreira.”
O impacto da maternidade na forma de empreender

Francine Ferrari – foto: Victor Affaro
Ser mãe também transforma a maneira de liderar negócios. Muitas profissionais relatam mais objetividade, sensibilidade e capacidade de priorização após a maternidade. Para Francine Ferrari, sócia-fundadora da Neobambu, a maternidade trouxe uma gestão mais estratégica e consciente. “A tecnologia e a inteligência artificial passaram a fazer parte da minha rotina justamente para preservar aquilo que considero inegociável: o tempo com os filhos.

Rafaela Mercaldo – foto: André Ligero
A visão de Rafaela Mercaldo, brand manager da Strauss reforça uma ideia cada vez mais presente entre mães empreendedoras: abandonar a busca pela perfeição. “Desapegue da ideia de equilíbrio. O que acontece na prática é uma alternância. Você não está sendo menos mãe quando viaja para liderar um comitê. Nem menos profissional quando se organiza para estar na apresentação da escola.”, enfatiza.

Pricilla e Daniella Barros e Tereza e Ana Claudia Rachid – DP Barros Interiores –
Foto divulgação
O escritório DP Barros Interiores, é composto por 4 sócias (duas duplas de irmãs), neste contexto, os valores familiares acabam atravessando naturalmente a cultura da empresa. “A empresa acaba refletindo muito do que a família acredita: respeito, confiança e união. É como levar para a empresa aquilo que já funciona dentro de casa.” As sócias reconhecem que equilibrar vínculos afetivos e decisões profissionais exige maturidade.
“Nem sempre é fácil, mas o segredo está em separar as coisas e manter conversas abertas. Dá para cuidar da relação e ainda tomar decisões firmes.” Comentam.
Uma nova narrativa sobre realização feminina

Cassiana Miranda – foto: Rafael Renzo
Mais do que “dar conta de tudo”, essas mulheres propõem um novo olhar sobre realização: integrar diferentes dimensões da vida sem abrir mão de si mesmas. A arquiteta Cassiana Miranda conta que a maternidade ampliou completamente sua percepção sobre sucesso. “Hoje, realização passa muito por ver meus filhos crescerem, se tornarem pessoas felizes eindependentes ” Ela diz que a chegada de uma filha trouxe ainda mais consciência sobre o exemplo que deseja deixar.

Shana e seu filho Kimi – Foto Edinara Teixeira
Sócia do escritório Mayresse Arquitetura, Shana Lima também passou a enxergar o sucesso através do impacto de suas escolhas na formação do filho. “Hoje, o sucesso está diretamente ligado às escolhas que impactam o futuro do meu filho. Passei a me perguntar qual será o impacto disso no adulto que estou formando.” Quando a resposta não faz sentido para esse propósito, ela afirma que a decisão deixa de valer a pena. “Sucesso passou a ser a capacidade de construir resultados no presente enquanto contribuo, com intenção, para o futuro do meu filho.”

Dani Fernandes – foto divulgação
A empresária Dani Fernandes acredita que sua geração foi a primeira a recusar a ideia de que seria necessário escolher entre maternidade e carreira. “A nova realização feminina é aquela que não pede desculpas por querer as duas coisas. Que não esconde os filhos numa reunião importante e nem esconde a ambição dentro de casa.”
Ela resume sua própria trajetória como a convivência natural entre múltiplas versões de si mesma. “Sou CEO, sou mestre em cosméticos pela USP, sou fundadora de um instituto, e soua mãe que amamenta, que acorda de madrugada e que chora de emoção quando a filha evolui. Tudo isso sou eu.”

Isabel Veiga – foto divulgação
Para a arquiteta Isabel Veiga, sócia do escritório Maai Arquitetura, a maternidade trouxe uma percepção mais profunda sobre propósito e exemplo. “A maternidade mudou completamente minha visão sobre sucesso. Somos profissionais, mães, psicólogas, cozinheiras, exemplos dentro de casa. Estamos sempre conciliando muitas funções.”
Ela acredita que os filhos despertam um desejo constante de evolução. “Os filhos fazem a gente querer ser melhor o tempo inteiro, porque eles se espelham na gente.”

Babi Teixeira – foto divulgação
Encerrando essa reflexão, a arquiteta Babi Teixeira olha para a própria trajetória com orgulho ao perceber que conseguiu construir uma carreira sem renunciar à maternidade. “Na prática, sempre foi sobre organização e prioridade. Estruturei minha rotina e o escritório para conseguir dar conta dos dois.”
Hoje, com os filhos adultos, ela vê o resultado dessa construção. “Olho com muita felicidade e satisfação. A relação que temos mostra que valeu a pena. Tenho muito orgulho do caminho que construí.”
Autora:
Gabriela Isgroi

