Eu recebi aquele senhor no final do dia, atendendo a angustiados pedidos de sua família. O seu Amado, que é como vou chamá-lo, estava dormindo mal há alguns dias e, aparentemente, não conseguia aprofundar seu sono por conta de uma Insuficiência Respiratória, fase final de sua doença pulmonar crônica. Diante da sua dificuldade em dormir, aquele senhor de oitenta e três anos pediu, entre soluços, para alguém finalmente acabar com seu sofrimento. Chegou meio decepcionado ao meu consultório, porque estava esperando por uma Eutanásia e acabou ganhando um Psiquiatra. “Estão achando que eu estou louco, doutor?”. “Não, seu Amado. Estão achando que o senhor está deprimido.” Ele me olhou interrogativamente, como gritando: quem não fica deprimido nessa minha situação?
Apesar de todos acharem que seu Amado estava entrando em fase terminal de sua doença pulmonar, ele conseguiu subir a escada até a minha sala, e falava com pouca dificuldade. Muita gente confunde Psiquiatria, que é uma especialidade Médica, com a Psicologia, e meu paciente ficou um pouco surpreso quando eu observei que seus Pulmões, pela aparência clínica, ainda tinham lenha para queimar. Não esperava ouvir isso do psiquiatra.
Conversando com mais calma, fomos destrinchando o que estava atrapalhando o seu sono: a sensação de falta de ar, que é bastante desagradável, piorava na hora de dormir, como costuma acontecer. O seu Amado ficava com a sensação de que iria morrer durante o sono e ficava brigando para não dormir. As medidas do Oxímetro também descartavam que sua oxigenação estivesse muito baixa ou causando aquela sensação. Aquele senhor estava com medo da aproximação da sua terminalidade, e ninguém falava sobre isso com clareza. Coube a esse psiquiatra que escreve esse texto dizer, com todas as letras que, sim, sua doença iria progredir provavelmente na direção da terminalidade, que realmente estava piorando, mas que seu problema com o Sono derivava do medo de morrer dormindo. Além disso, em seu histórico pessoal e familiar havia antecedentes de Depressão e isso perturbava muito seu descanso. Entrei com um antidepressivo que atuava bem no sono e atuava bem em idosos, e no dia seguinte, seu Amado acordou cantarolando, feliz da vida, após uma boa noite de sono. Os familiares ficaram me olhando com aquela cara de que estavam olhando um bruxo ou coisa que o valha. Não é nada disso, mas aproveitei esse breve momento de glória, pois outros problemas surgiriam pela frente.
O que eles não sabiam é que a conversa tinha se aprofundado para o tema do qual todos fogem, que é a aproximação da Morte. Além de ter falado claramente com ele sobre o medo que ele sentia, falamos depois sobre sua vida e seu legado para a sua aflita família. Foi nessa hora que a consulta entrou numa espécie de tempo ampliado, em que o paciente começou a contar a sua história: uma vida difícil, mas plena, de uma origem muito humilde para um final de vida confortável. Amado tinha guardado de sua infância pobre um medo imenso de ficar sem dinheiro e me confessou que gostaria de não ser tão pão duro. Mas, olhando de cima, tinha orgulho de sua trajetória. Acho que essa visão ajudou mais o seu sono do que o remédio, mas isso eu não falei para ninguém.
Nas consultas seguintes, meu paciente relatou melhora de sua angústia, de seu apetite e disposição. O seu medo da aproximação da Morte estava mais brando e ele acreditou que ainda tinha tempo pela frente. Mas se sentia culpado, pelos anos de cigarros acesos durante todo o dia e pela demora em procurar ajuda, com medo de gastar seu dinheiro. Antes de mencionar tudo o que ele tinha conquistado e construído com trabalho intenso e honesto, perguntei se ele conhecia o conceito filosófico do Amor Fati. Ele não conhecia, eu expliquei. Nietzshe, que amava os Estóicos, tinha emprestado deles esse termo, que significa o Amor ao Destino: abraçar o seu destino com todos os erros, todas as covardias e também toda a grandeza que tinham trazido aquele senhor até aquele momento. Entre lágrimas, ele me perguntou se podia se orgulhar de sua caminhada. É claro que podia, respondi. Ficamos no silêncio que às vezes sela uma nova compreensão de tudo. E do todo.
Meu paciente viveu mais alguns anos e faleceu por complicações de seu quadro pulmonar crônico. A sua família, que ainda me acha meio bruxo, creditou a sua serenidade final ao tratamento medicamentoso. Um dia vou falar com eles sobre amar e abraçar o destino, em sua totalidade, em vez de passar a vida pensando em como deveria ter sido esse destino.
E vocês, leitores: como anda o amor pelo seu destino?
*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”


