Tem gente que passa por uma cidade. E tem gente que vira parte dela.Bruno Houston de Souza Bento era desse segundo tipo. Mesmo pra quem, como eu, não foi tão próximo, era difícil não perceber: ele tinha um jeito próprio de existir e Areal percebia isso. O tipo de pessoa que não fica no fundo da cena. O Bruno estava quase sempre em evidência, não por arrogância, mas por presença: pela alegria, pelo jeito de tratar as pessoas, pela forma de se vestir, pela maneira de curtir a vida sem pedir licença para ser ele.
E, no meio desse brilho todo, ele ainda tinha essas delicadezas que parecem pequenas, mas ficam gigantes na memória. Toda vez que me encontrava, fazia questão de comentar que torcia pelo Botafogo, e fazia isso porque sabia da minha paixão pelo clube da Estrela Solitária. Era o jeito dele de criar um vínculo, de puxar assunto com leveza, de dizer “tô te vendo” mesmo numa relação não tão próxima. Hoje, isso bate diferente: é o tipo de lembrança simples que vira tesouro.
Também não esqueco a nossa última troca de palavras, pelo direct do Instagram, quando ele ainda se recuperava de uma pneumonia no hospital. Eu desejei melhoras e ele respondeu com um singelo e carinhoso “obrigado, amigo”. Tão curto, e ao mesmo tempo tão cheio daquele jeito dele de ser: humano, direto, afetuoso. Depois de ontem, essa frase ficou ecoando como despedida sem que ninguém soubesse que seria.
E tem um detalhe que, para mim, diz muito sobre a coragem e a identidade dele: Houston não era só um enfeite. Foi um nome escolhido, assumido com convicção, e ainda levado oficialmente ao registro. Pouca gente entende o peso disso. Não é vaidade; é assinatura de quem olha para o mundo e diz, com firmeza e leveza ao mesmo tempo: “eu sei quem eu sou e é assim que eu quero ser chamado”.
Em cidade pequena, a gente aprende uma coisa rápido: reputação não nasce de discurso bonito; nasce de repetição diária. Do “bom dia” que a pessoa não economiza. Do sorriso que aparece mesmo quando o dia não ajuda. Da energia que muda o clima do lugar. O Bruno tinha isso. O jeito dele de chegar, de conversar, de se posicionar, às vezes só pela presença e pelo estilo, fazia com que a cidade reparasse. E quando muita gente repara por muito tempo, acontece o que aconteceu com ele: o Bruno vira referência.
Por isso, com a notícia do falecimento dele ontem (17/04/2026), fica uma sensação estranha e muito clara: Areal perdeu alguém que todo mundo conhecia. E não conhecia só de nome. Conhecia de reconhecer na rua, de comentar, de lembrar de alguma cena, de alguma história, de algum momento em que ele apareceu como ele sempre aparecia: com vida, com brilho, com aquele jeito dele de aproveitar.
O falecimento do Bruno, aos 44 anos, me fez pensar em como a gente não tem mais um minuto sequer para deixar de aproveitar a vida. E o Bruno, apesar de ir embora jovem, levava isso muito a sério. Ele fazia questão de ser feliz e, do jeito dele, também ajudava as pessoas. Talvez seja esse o legado mais forte que alguém pode deixar, sem precisar de discurso, sem precisar de palco.
Chamar o Bruno de lenda arealense não é exagero. É só o jeito mais direto de dizer que ele virou memória coletiva, dessas que a cidade guarda sem esforço: no papo de esquina, no “você lembra do Bruno?”, nas histórias que circulam porque têm verdade nelas.
Eu escrevo isso sem tentar ocupar um lugar que não foi meu. Escrevo do lugar do respeito, o respeito de reconhecer que algumas pessoas merecem homenagem não apenas por intimidade, mas por impacto. E o Bruno, com a alegria, com a maneira de tratar as pessoas e com a forma de viver, impactou.
Descanse em paz, Bruno Houston.E que Areal siga dizendo seu nome com carinho, do jeito certo, do jeito inteiro: como quem se despede de alguém que virou parte da cidade.


O Bruno era uma pessoa incrível: humano, carismático e sempre presente. Ele será sempre lembrado por todos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo. Que Deus o tenha em bom lugar.