Recentemente me deparei com um vídeo nas redes sociais que me fez refletir
bastante sobre essa necessidade cultural e atual de leitura crítica e única, onde
ler muitos livros é performático, ler poucos livros é alienação, e para ser
considerado letrado e inteligente você precisa ter lido determinados títulos, de
preferência bons clássicos ganhadores de prêmios literários e politicamente
aceitos entre os acadêmicos e estudiosos. Sendo bem sincera, eu entendi
perfeitamente todos os pontos debatidos no vídeo, e não só isso, eu concordo
com tudo que foi dito. Ele apontava na verdade de forma bem coerente sobre a
leitura rasa, e essa dificuldade de aprendizagem e senso crítico onde não
sabemos interpretar textos, entrelinhas, diferenciar a voz do autor, do narrador e
dos personagens, onde cancelamos autores por falas ditas pelo narrador, sem
compreender onde se encaixa cada julgamento, e ainda, que esse senso crítico é
elitista, e que saber ler é caro. E eu concordo com tudo isso. E de fato, é verídico
que o letramento social dos indivíduos, muito além da pura alfabetização é
necessário para uma relação crítica do saber e do conhecimento, e que sem
entender e interpretar o que de fato os livros nos dizem fica difícil produzir novos
conhecimentos, novas pesquisas e novas ciências.
O ponto é, existem muitos debates hoje em dia sobre o que é ser leitor, qual
repertório literário faz de você portador dos grandes conhecimentos, se não leu
Dostoievski é considerado iniciante e se lê livros eróticos é viciado em
pornografia, se ter muitos livros na estante e não ler é meramente consumismo
capital, se ler rápido é leitura dinâmica ou se audiobooks podem ser considerados
leitura. E para mim, esses debates só fazem com que o hábito da leitura se
distancie cada vez mais da população, já que por meio deles a gente acaba
perdendo o fio da meada, a essência principal de tudo relacionado a arte e cultura
que é: o prazer. Nós não fomos projetados socialmente para a leitura, nós fomos
projetados para trabalhar, sobreviver, produzir e consumir. O grande objetivo do
capital é de que não sequer tenhamos tempo, energia e disposição física e
cerebral para sentar-se e ler, formas frases, opiniões, viver a experiencia da
sensação de se colocar em outra realidade, em outro universo, se apegar a
personagens, dar risada, chorar, SENTIR.
No texto “Literatura e Revolução” de Trotsky (1923), ele aponta com muita clareza
o processo de dominação da cultura pela burguesia, muito antes que o poder e o
controle das classes fossem organizados pelo capital, toda bagagem cultural e
intelectual já havia sido programada e disciplinada a partir da conjuntura elitista.
Essa classe específica é quem dominava a imprensa, o teatro, a música, a dança,
o circo, os livros, revistas e jornais, desde o feudalismo, muito antes de dominar
todo lucro produzido a partir da exploração do homem sobre o homem.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil aponta que a falta de tempo é o principal
fator que os entrevistados citaram para não lerem. Com o dia a dia corrido entre
trabalho, trânsito e cuidados com a casa e filhos, fica cada vez mais difícil
aproveitar do tempo livre. Ainda, outras pesquisas apontam que a Região Sul é a
única das cinco do país onde ainda há uma maioria de leitores na população:
atualmente, 53% dos moradores desses três estados leram total ou parcialmente
pelo menos um livro nos três meses que antecederam a pesquisa. Ou seja, os
estados mais privilegiados do país são os que mais leem, e quando existe um
boom da internet e das redes sociais na produção de conteúdo sobre livros e os
“hypes” do momento, isso é ovacionado como performático e raso.
O que me incomoda é, todo mundo sabe que o incentivo a leitura tem como fato
comprovado que ler estimula o cérebro, auxilia no desenvolvimento cognitivo,
expande vocabulário e uso de palavras novas, melhora a dicção e a oratória,
sensibiliza a empatia, traz questionamento e reflexões, e principalmente, diminui
o estresse, alivia a tensão cotidiana, e aumenta a criatividade e a imaginação, o
que além de por si só auxiliar na construção do pensamento crítico, trabalha em
um processo de EMANCIPAÇÃO SOCIAL. Quando pensamos em emancipação
nesse debate, as pessoas acham que isso significa exatamente ler conteúdos
políticos, clássicos, com critica social profunda e bagagens acadêmicas por trás.
Mas para muito além disso, a emancipação social é exatamente ter o direito de
fazer o que a estrutura não quer que você faça, isso é, descansar a mente, ler um
romance e chorar, ler um suspense e trabalhar a imaginação e a curiosidade, ler
uma fantasia e se desprender da realidade por um momento, isso é emancipar o
corpo humano de um sistema que só quer que você sobreviva a fim de produzir
mais.
Antônio Candido em O Direito à Literatura (in: Vários Escritos) defende a literatura
como uma necessidade universal que humaniza e liberta, agindo como um
“direito” fundamental, não apenas como ferramenta pedagógica. A arte tem como
papel essencial na vida humana encher de objetividade a nossa racionalidade e
individualidade, encher de incertezas as nossas convicções, isso não é lindo?
Digo tudo isso porque vejo muitos jovens e muitos dos que não tem o hábito ou o
costume ou talvez até o apego e gosto pela leitura terem o desejo de começar,
mas se sentirem envergonhados por não possuírem o “repertorio necessário” ou
não serem detentores do conhecimento que se deve ter para ser considerado um
leitor. E isso além de triste, não poderia estar mais longe da verdade. Não existem
leituras superficiais, rasas ou desnecessárias. O objetivo principal da leitura é
sentir, é experienciar, nós aprendemos e adquirimos conhecimento a partir daí,
não o contrário. A habilidade crítica de interpretação e literatura é necessária,
principalmente se você é um estudante da área, se você produz conhecimento e
pesquisa por exemplo, mas isso não é um pré-requisito para o ato de
simplesmente ler. E se apegar a esse discurso afasta leitores iniciantes e aumenta
a tendencia já permanente de preferir conteúdos rápidos, acelerados e digitais no
nosso tempo livre ao invés de sentar-se e ler.
Quando estudamos a fundo a história da ditadura militar no Brasil e os conflitos da
literatura, da censura, da queima de livros e bibliotecas, por exemplo, percebemos
que o objetivo nunca foi apenas proibir o pensamento critico de reflexão, mas
também o divertimento, o encantamento, o ócio, a distração de uma estrutura
capital e governamental que te quer em um lugar específico de exploração.
Ler é um ato de resistência, isso é emancipação, não importa QUAL livro, de que
estilo, que gênero, em qual velocidade ou se é físico, no kindle ou no PDF. Os
benefícios da leitura não vêm com título. Saibam disso. Antes de leitores críticos,
precisamos de leitores.
Autora:
Esther Faria


