Poucos sabem o que é música. A música está nas entranhas de somente poucos seres humanos. Não trato aqui da música ouvida, que entretém os sentidos. Falo da música que pulsa, daquela que sai do peito, que extravasa pelas pupilas, pelo hálito, pelos poros. A música é ponte e ponto para encontros de almas, aquelas que levitam perdidas pelas calçadas tumultuadas das grandes cidades. O compasso dos passos abalroam-se, entrelaçam pernas, mãos e dedos… e as notas nada mais são que palavras sussurradas entre os amantes das melodias.
Sonhos se vivem no cotidiano: nas canções sentidas, assimiladas pelo espírito musical de quem se conecta. Respira-se a paixão por aqueles contornos esquipáticos da partitura, que se traduzem em sentido para o espírito e que preenchem os vazios do silêncio.
A música é o escuro do dia e ao mesmo tempo o clarão da noite. É a utopia do amor não vivido, retumbando freneticamente nas palavras de cartas amassadas. A música é o sorriso da alma, a paixão que pulsa no sangue que insiste em circular além do que pode. É a viagem no próprio corpo e, perigosamente, a armadilha da solidão.
O contorno do violão, por exemplo, é como o rumo da vida: circular e sem fim. O viver não finda; as coisas não mudam. Tudo é para sempre. A musicalidade da vida permite a eternidade da memória, pois quem vive a música sempre deixa um legado musical nas entranhas de quem o ouviu. Nesse jogo de bem e mal, sofre quem sente: aquele que é atropelado pelas notas e pelo metrônomo intimidatório da vida.
Viver é um exercício musical que poucos entendem. Saber disso é perigoso: pois não há quem discorde que a capacidade humana de lidar com o sentir é pura complexidade. A música desafia a racionalidade e extrapola a sentimentalidade, traduzindo-se em um fervoroso fluxo de subjetividade. Uns vivenciam. Outros experienciam. Outros musicalizam a vida: viram potência.


