Condomínio, Congresso e Cabaré

Quem nunca morou em Condomínio ou jamais participou de uma Assembleia, não sabe o que é viver perigosamente. Tem jogo de poder, intrigas, maracutaia, desvio de verba, assédio e muito mais. Se você quer saber como é um Condomínio ou uma Assembleia, ligue a TV no noticiário ou canal público e acompanhe as sessões do Congresso. É mais ou menos a mesma coisa. Só que os rolos de um condomínio afetam apenas seus condôminos. Já os do Congresso, afetam o país inteiro.

Assim como no Parlamento, nas assembleias condominiais também tem brigas, ameaça de morte (às vezes cumprida), fofocas, fake news, denúncias, conchavos, política, traições e promessas furadas. O Condomínio é um Congresso em miniatura e o Congresso é um grande Condomínio. O condômino para as taxas e o contribuinte os impostos. Se você mora em condomínio, paga os dois. KKK

Outra semelhança: boa parte dos condôminos não comparece às Assembleias. Depois, queixam-se do valor da taxa e da conservação do prédio. Muitos eleitores não se interessam por política, não votam, ou votam por obrigação. Nem se lembram em quem votaram. Depois reclamam dos impostos, da falta de segurança, da corrupção etc.

A cada quatro anos, os políticos pedem seu voto dizendo que vão lutar pelo povo e corrigir as cacas, que na verdade eles mesmo fizeram. Mas o que eles querem é apenas garantir interesses pessoais. No Condomínio, se alguém pede seu voto para ser eleito síndico, desconfie da sua idoneidade, da sanidade ou de ambas.

Se você for à Assembleia para ver como é, atente para as seguintes dicas: 1) Nunca sugira coisa alguma; 2) Se uma ideia vier à cabeça, não a mencione; 3) Jamais aceite participar de Comissões, a menos que a comissão compense ($$); 4) Em nenhuma circunstância assuma qualquer cargo. 

Na Assembleia de Condomínio, quem sugere muito vira Síndico. A menos que você tenha dinheiro no Banco Master, torça para a Portuguesa ou aguarda o dinheiro do golpe do INSS, jamais aceite ser síndico. Todos te cumprimentam, dizem que vão ajudar, mas depois somem. Pensa que manda, que é autoridade, porém é só um empregado dos vizinhos, sem férias remuneradas e escravo do zelador.

Alceu Dispor nunca morou em condomínio. Recebeu uma convocação, foi à Assembleia, mas não atentou para as dicas do 5º parágrafo. Chegou curioso, palpitou bastante e saiu síndico eleito. Viúvo, gente boa, Contador aposentado, morador solitário, ex-assessor parlamentar, conhece maracutaias, golpes, conchavos, mas viu no cargo uma oportunidade para ocupar o tempo ocioso, fazer amizades e ser útil. Ledo engano.

Passou dias planejando o trabalho, negociando dívidas, refazendo prestações de contas viciadas, redefinindo funções dos empregados e mediando atritos entre os vizinhos. Subsíndico e conselheiros jamais atendiam convites para reuniões, nem respondiam mensagens via WhatsApp. Além da Administradora, suas preocupações se resumem a 5 itens, todos iniciados com C: Condôminos, Crianças, Cachorros, Canos e Calote. Todo dia tem cano furado, briga de vizinhos, gritaria da criançada, reclamações sobre latidos, mordidas e pedidos para pagar a taxa com atraso. Sem multa, claro. Sua pacata vidinha de aposentado ganhou sabor de visita de sogra em feriado prolongado.

Eva Gabas foi a única a oferecer ajuda. Eles se entrosaram bem e ela não saia de seu apartamento. Não entende de gestão condominial, mas é ótima companhia. Levou a escova de dentes, depois as roupas, sapatos, e não saiu mais de lá. Não tardou a assinarem acordo de União Estável. Almas gêmeas, Eva sente tudo o que ele sente, antes mesmo dele sentir. Olha intensamente nos seus olhos, mas só para saber se ele está com conjuntivite.

Porém, ela não tardou a mostrar as credenciais. A ex-rapariga e ex-dona de Cabaré não pagava o aluguel e nem condomínio. Deve na praça, é procurada em 3 Estados e em poucos meses transferiu a aposentadoria do idoso para sua conta. Sumiu por um tempo e Alceu achou que ela tinha morrido. Eva Gabas largou várias bombas nas mãos do idoso, que foi preso por suspeita de feminicídio. Gente ruim também morre, pensou, mas isso não muda o que elas foram.

Por causa dela, Alceu responde processos por estelionato praticado em seu nome, intimações da Receita Federal, do INSS e da Prefeitura, além de ações de cobrança de fornecedores do Condomínio. Na cadeia, entrou para uma gangue, arrependeu-se, mas não teve como pular fora, pois a regra é “ninguém sai”. Um amigo pagou a fiança e Alceu Dispor foi solto.

Reencontrou Eva Gabas, reconciliaram-se e o aposentado usou as economias para reinaugurar o Cabaré. Hoje, vive cercado de piriguetes, de boa com traficantes, procurados pela Justiça, mas tem de lidar com fiscais e policiais corruptos. Oferece conforto e consolo a maridos abandonados e atura bêbados chorões diariamente. Porém, a vida é boa e ele é muito feliz junto à sua amada.

Alceu dispor conheceu de perto o Congresso, o Condomínio e o Cabaré. Das três zonas, prefere a terceira, bem mais honesta. Síndico de Condomínio, nem pensar! É muito perigoso! Vida que segue.

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle). Crônicas de humor toda sexta-feira, às 10h.

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