Bodas de Brilhante, Memória e Tecnologia

Antigamente, as pessoas memorizavam todas as informações importantes: números de telefones, endereços, aniversários, trajetos, RG, CPF. Hoje, o celular, o Waze e os Apps fazem tudo isso. Se roubarem o celular, ninguém sabe um único número de telefone para pedir ajuda, nem o caminho de volta para casa. Eu mesmo, quando me pedem o número do celular ou placa do carro, preciso olhar na tela ou no documento.

O Facebook lembra os aniversários do dia e sugere frases para cumprimentar. Mas é preciso recordar quem é esse aniversariante e de onde o conhecemos. Tem pessoas com vários perfis no Facebook e muitasvezes cumprimentamos no perfil que o aniversariante nunca vê e nem lembra que criou.

Tenho uma prima tão atrapalhada que, no dia do próprio aniversário, cumprimentou a si mesma no seu outro perfil. Achou engraçado ter alguém com mesmo nome e mesma data de nascimento. Em compensação, ela não cumprimentou a filha. É que a moça usa um avatar criado por Aplicativo em vez da foto no perfil, e a mãe não a identificou. A moça usa tanta maquiagem que o reconhecimento facial do celular nem sempre desbloqueia a tela.

A memória pode sofrer desgaste pela idade ou por patologia degenerativa (patologia é doença, para quem não lembra). Tia Gertrudes não anda bem da memória e os filhos deram um smartphone para ela gravar números de telefones, compromissos, consultas e tomar remédios. A tia não lembra onde deixou o aparelho, ou esquece de carregar a bateria. Quando faz tudo certo, não lembra a senha.

– Mãe, você não anotou a senha?

– Eu anotei, na agenda do celular, mas para acessar preciso da senha. 

– E o remédio para a memória que o doutor prescreveu?

– Nunca lembro de tomar.

Idoso, memória e senha não combinam! Tem senha para a conta bancária, para o cartão de crédito, celular, Facebook, PIX etc. Uma vizinha ficou horas no hall do elevador porque esqueceu a senha da fechadura eletrônica. Nem lembrou que tinha a chave na bolsa e não telefonou para o marido. Ele confunde os toques do celular, do micro-ondas e do rádio relógio, e não sabe usar nenhum dos três!

Quando usamos “Recuperar Senha”, o sistema sugere uma combinação forte, com mais dígitos e letras do que número de chassi. Ninguém memoriza! Se escolho criar uma senha, o sistema recusa todas as que já usei alguma vez na vida. Como eles se sabem as senhas que já usei e eu não?

Tem gente que não tem problemas de memória, mas é muito distraída. O filho do vizinho chegou em casa de madrugada porque roubaram seu carro, o celular e ele não sabe os telefones do pai e da mãe. Ao registrar o B.O, não lembrava a placa do carro. Foi para a faculdade de Uber e, pasmem, encontrou seu carro no mesmo lugar onde sempre estaciona. Procurou na rua errada, por isso não encontrou. Dias depois, foi parado numa Blitz e detido porque dirigia um carro roubado!

A coisa tende a se complicar com cada vez mais pessoas em idade avançada e senhas cada vez mais complexas. Feliz mesmo é seu Nicanor, 97 anos de vida 100% analógica. Ainda leva no bolso fichas da Telesp, mas não encontra Orelhão que aceite. Sua memória já dá sinais confusos, mas isso não impediu a neta, jornalista, de cavar entrevista na TV por ocasião das Bodas de Brilhante – 75 anos casado com dona Popô. O casal foi para o estúdio, filhos, netos e bisnetos acompanharam pela TV.

– Seu Nicanor, como era estudar no seu tempo, sem computador, Google ou celular?

– A gente tinha de ler muitos livros e decorar tudo: equações, fórmulas químicas, fatos históricos, Capitais, pronomes oblíquos, ossos do corpo humano, afluentes do rio Amazonas. Tudo!

– Poxa! O senhor deve ter sido um ótimo aluno.

– Fui sim, mas nunca precisei usar quase nada das coisas que decorei.

– E a Dona Popô? O que acha disso?

– Popô é muito tímida. Nem queria vir no seu programa. Sou mais falante.

– Como é estar casado há 75 anos? Rola ciúme, alguma briguinha?

– Popô tem péssimo olfato e eu tiro o aparelho de surdez para dormir. Não ouço ela roncar e solto gases à vontade. Por isso a gente não briga.

– Quando o namoro começou? Aliás, qual é o nome da dona Popô? 

– Como se chama o lado triângulo do Pitágoras cujo quadrado é a soma dos quadrados dos catetos?

– Acho que é Hipotenusa.

– Isso mesmo! Hipotenusa, meu bem, quando começamos namorar?

Seu Nicanor esqueceu o nome da dona Popô e hoje vai dormir no sofá. Quem riu da memória dele, sua hora vai chegar. Agora que terminei o texto, é só programar a publicação no Jornal Tribuna, tão logo eu lembre a droga da senha.

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle). Crônicas de humor toda sexta-feira, às 10h.

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