A Inércia do azar

“O Brasil é dividido em dois países: o dos privilegiados e o dos despossuídos.” —

Ariano Suassuna

Os dias têm sido quentes e, por aqui, o vento se ausenta com uma certa rebeldia constante. São três e meia da tarde; nesse momento, estou na biblioteca organizando o roteiro semanal das mediações. Ouço as vozes dos estudantes que saem das salas com passos rápidos e, em seguida, sobem para o terceiro andar. Foi então que uma estudante entrou perguntando se poderia ler um livro. Sinalizei que sim e, imediatamente, ela encontrou o que queria, sentando-se para iniciar a leitura.

O riso a cavalo

Após um tempo, ela me perguntou repentinamente de onde o dinheiro vem. Sem pensar muito, respondi que vinha do sofrimento alheio. Naquele instante, ela estava deitada no chão lendo meu livro, Feliz por Nada, da Martha Medeiros. Afinal, ando sempre com ele e o carrego para todo lugar. Inclusive, para quem diz que não gosta de ler, insisto em apresentar a Martha para o mundo. De fato, a menina estava gostando da leitura, mas me surpreendeu com aquela pergunta. Logo após minha fala, ela caiu no riso, confirmando minha resposta e concordando plenamente.

Certamente, o riso é, para o brasileiro, um remédio à desgraça que nos é imposta. E não é mesmo? Diga-me, caro leitor: de onde vem o dinheiro, se não do sofrimento daqueles que pouco ou nada têm?

 País dos privilegiados e o país dos despossuídos.

Dando continuidade à conversa, ela também me perguntou: “Quem nasce no Brasil é o quê, tia?”. Respondi, também sem demora: “Quem nasce no Brasil, querida, é sofredor. No mínimo!”. Por consequência, outra gargalhada veio em seguida. Ela dizia que havia dito a mesma coisa na semana passada a um colega. Contudo, por que será que o sofrimento precisa estar lado a lado com nossa passagem nesta vida?.

Paulo Leminski escreveu que esta vida é uma viagem, pena estarmos apenas de passagem. Diante disso, penso: não seria uma sorte estarmos só de passagem? Afinal, longe de mim imaginar que poderíamos viver nesse sofrimento por uma agoniante eternidade. Da mesma forma, evito olhar para as paredes e avistar para sempre um labirinto de memórias amargas.

Nação pensada para poucos e sofrida por muitos.

É verdade que há paradas magníficas nessa jornada, mas sabemos bem que nem todos possuem o privilégio de embarcar no passeio. Muitos ficam retidos na inércia do azar, sem a passagem em mãos. Enquanto alguns que usufruem da viagem se lamentam — por vezes com razão —, outros sequer são informados de que a viagem existe.

Para esses, que desconhecem lugares e possibilidades, o que resta fazer? Talvez apenas o desejo invisível de voltar para casa. Mesmo que já não saibam mais como encontrá-la.

Monica Graciete
Monica Gracietehttps://mgcronicandoavida.blogspot.com/
Pedagoga, especialista em Educação Inclusiva e em Arte. Educadora por vocação, cronista por essência. Escrevo crônicas existenciais, educacionais e memorialistas. Meus textos falam de questões educacionais e familiares, dos desafios da maternidade atípica e as ironias do dia a dia. Escrevo, porque a vida não basta e a Literatura é um dos melhores lugares para existir.

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