A felicidade é chuva

Sobre o vício de buscar a felicidade e a arte de elevar o mundo através das pequenas satisfações

Era um dia quente. Eu estava sentada em frente ao computador na biblioteca — uma mesa simples de madeira em um ambiente bem arejado. No entanto, o sol era maioral; afinal, estamos no mês de março no Nordeste, e o calor aqui é quase um parente: daqueles que a gente não gosta tanto, mas também não vive sem. Do lado de fora, profissionais da sala do AEE transitavam em busca de um ar fresco.

Eu conversava com Elihud, um colega de trabalho recém-chegado. Detalhe: ele é judeu e, desde sua chegada, sinto vontade de explorar seus conhecimentos e sua filosofia de vida. Inesperadamente, ele entrou na biblioteca para perguntar a senha do Wi-Fi e acabamos iniciando uma conversa sobre a felicidade. Eu havia lhe mostrado a crônica de Martha Medeiros, “Feliz por nada”, e ele comentou como o conceito é visto pelo judaísmo.

Ouvi atentamente sua explicação: a felicidade não é o nosso objetivo principal aqui. A busca obstinada por ela é, na verdade, um vício insaciável.

E talvez você tenha se perguntado o mesmo que eu: mas, afinal, qual é o nosso objetivo aqui? Para minha surpresa, a resposta foi: apenas melhorar um pouco o mundo à nossa volta. De uma forma mais ampla, Elihud resume nossa missão afirmando que o objetivo é elevar tudo o que estiver ao nosso redor.

Achei a ideia intrigante e graciosa. Há poucos dias, eu havia escrito sobre “os felizes e os tristes”, e aquela conversa acontecia exatamente no dia em que eu precisava ouvi-la. Afinal, a felicidade é um desejo universal — quem quer viver na tristeza? Ninguém, acredito. Mas, naquele momento, ele me fez olhar para a felicidade como a chuva: que às vezes cai e às vezes não. Ela não é o único elemento necessário para fazer as flores brotarem; o sol, o solo, o vento, as abelhas e os pássaros também o são.

Todos esses elementos juntos têm um único propósito: fazer a planta crescer! Sendo assim, o nosso também é: fazer o mundo à nossa volta crescer, florescer, germinar e dar frutos. Independentemente de estarmos esbanjando felicidade ou mergulhados em tristezas e amarguras, o que importa é atingir um nível de consciência que eleva a necessidade humana do micro para o macro. Isso não minimiza o individual, mas amplia a percepção e a intencionalidade de nossas ações e das pessoas ao nosso redor.

Eram quatro e trinta e oito da tarde de sexta-feira. Ele iria embora faltando dez para as cinco; pegaria o ônibus para outra cidade. Enquanto eu lia o rascunho do livro dele — um resumo de uma obra de oração judaica —, alguns estudantes entraram para trocar livros. Pausei a leitura. Percebi que os olhava sob outra perspectiva. Sempre os olho com empolgação — meu desejo é que escolham livros e se sintam felizes com a leitura, pois livro é sempre felicidade — como uma nuvem cinzenta que sempre traz água. Ali, olhei para eles, serena. Afinal, o ato de circular pela biblioteca já configura um momento feliz, e o bibliotecário eleva, direta ou indiretamente, a consciência dos estudantes, como todos os professores que se doam um pouco mais do que a função exige.

O relógio indicava quatro e quarenta e nove, e lá se foi ele pegar o ônibus. Sempre sereno. Estava me sentindo grata pela oportunidade daquele diálogo. Raramente encontro alguém com quem possa filosofar sobre a vida; diálogos tão densos e abstratos que obrigam o pensamento a desacelerar para conseguir acompanhar o ritmo, um processo de humanização importante em meio a uma sociedade acelerada e automática. Haviam sido minutos felizes. Sem gargalhadas descontroladas, de orelha a orelha. Uma felicidade tranquila. Sem pressa, sem promessa, expectativa ou obrigação. Se você coloca a felicidade como único objetivo, o resultado é a insatisfação, logo, o insustentável, pois na busca intensa de momentos felizes a outros, aumenta-se a exigência e a insaciável fome pela felicidade. Gerando de novo a temida monotonia, e consequentemente a decepção e insatisfação.

 Ao chegar em casa, pensei em como a felicidade plena talvez esteja apenas em não buscá-la. E posso afirmar com certeza: a felicidade está na satisfação de jantar uma maça acompanhada de uma xícara de chá e olhar a varanda, sem pressa.

Monica Graciete
Monica Gracietehttps://mgcronicandoavida.blogspot.com/
Pedagoga, especialista em Educação Inclusiva e em Arte. Educadora por vocação, cronista por essência. Escrevo crônicas existenciais, educacionais e memorialistas. Meus textos falam de questões educacionais e familiares, dos desafios da maternidade atípica e as ironias do dia a dia. Escrevo, porque a vida não basta e a Literatura é um dos melhores lugares para existir.

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