A Bailarina

Continuo cansada. Tenho dito tanto isso ao longo do dia, que fico receosa de minhas palavras serem responsáveis pelo peso que sinto a cada movimento que faço.

Estou indo além dos meus limites. Espero que, ao final, eu esteja aqui para viver tudo que sonhei um dia. Espero mesmo que tudo isso não acabe em um: “meu Deus! O que aconteceu? Ela era tão jovem”. Espero que acabe em algo mais bonito, mais leve e mais feliz.

Ouço o barulho do ventilador no quarto. Coloquei meu filho para dormir e levantei para estudar. Está prestes a sair o edital de um concurso aqui na minha cidade e, não importa o que eu esteja vivendo, o que importa é minha aprovação. Ver meu nome no Diário Oficial. É o sonho da maioria dos brasileiros: ter a paz de uma estabilidade financeira. São tantas consultas e terapias que nos aguardam no futuro, que não posso viver à mercê dos contratos da vida. Confesso que, em meio à rotina, responsabilidades e vagas, acabo sabotando minha mente e desacreditando da possibilidade de realizar esse sonho no momento. Mas sigo com fé. Afinal, a esperança é a última que morre, não é mesmo?

Agora são uma e vinte e oito da madrugada e ainda tenho recursos pedagógicos para finalizar. Amanhã é dia de mediação literária com a educação infantil. Eu gosto da presença das crianças; traz esperança. Contarei sobre as emoções, usando um livro bem fofo sobre um leão que fica irritado. Vamos cantar a música “Cara de quê?” e depois acalmar a euforia com a canção “Calma, respira”. Talvez nesse momento eu mesma consiga parar e respirar de fato.

Não sei se já aconteceu com você, mas olho para todos os lados e, por muitas vezes, não me vejo. Sinto uma leve sensação de observar de fora uma vida que vai dançando conforme a música. Mesmo sem as “pernas”, ela sai bailando. Às vezes observo neutra, apenas na expectativa de que algo animador aconteça, mas é queda por cima de tropeço.

Minha mãe me fala sempre para ficar tranquila e confiar em Deus. Hoje ela deixou sopa para eu jantar. Havia dito a ela que, no domingo, meu jantar foi uma maçã e uma xícara de chá; estava sem apetite. Minha mãe ficou preocupada e, antes de sair, deixou a sopa pronta para me alimentar. Ela está sendo minha fortaleza. Enquanto trabalho, ela cuida do meu avô o dia inteiro. Estou fazendo tudo que posso para vencer essa fase graças a ela, que não soltou a minha mão em nenhum momento.

Olhando a tela do notebook, me peguei refletindo sobre como gosto de escrever. A cada dia que sento nessa cadeira e começo a me preencher juntamente ao espaço em branco, sinto que estou mais perto de me encontrar. E como sempre digo, a escrita me salva da vida, me ajuda a viver e a sobreviver ao mundo. Quem tem esse primeiro contato, sente ao longo do tempo que é um caminho sem volta.

Cansada? Sim! Mas satisfeita.

Satisfeita pela mulher que estou me construindo dia após dia. Que não desliga a música, que não se agarra a suas pernas quebradas, mas se mantém de pé e segue o baile. No seu ritmo, do seu jeito. Acredito que devido ao ritmo acelerado que o capitalismo nos coloca, é difícil desfrutar de ao menos uma hora para respirar um ar puro. Por aqui tem sido assim. Parece sufocante, claro! Mas há grande satisfação em usufruir da liberdade de escolha, de sentar nessa cadeira em frente ao espaço em branco após uma rotina exaustiva, e escrever! E bailar! E existir!

Há uma fase da vida, onde acontece um estalo e chegamos enfim ao que nossa alma buscava sem saber. Só pode ser esse o meu momento. Escrever me faz saltar da cama, mesmo que o sono me faça querer fechar as pálpebras. É quando você fica em frente a algo que te faz despertar da inércia, que você encontra o X da questão. Espero acertar as alternativas exatas do concurso, mas se não for dessa vez, ficarei em paz. Pois achei o X da questão principal da vida.

Monica Graciete
Monica Gracietehttps://mgcronicandoavida.blogspot.com/
Pedagoga, especialista em Educação Inclusiva e em Arte. Educadora por vocação, cronista por essência. Escrevo crônicas existenciais, educacionais e memorialistas. Meus textos falam de questões educacionais e familiares, dos desafios da maternidade atípica e as ironias do dia a dia. Escrevo, porque a vida não basta e a Literatura é um dos melhores lugares para existir.

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