Por Erick Renato Rufino Hernandes
As redes sociais consolidaram-se de vez na rotina dos brasileiros e redefinem as estratégias de marketing empresarial. O Brasil já soma 144 milhões de usuários ativos nessas plataformas e figura entre os maiores consumidores de mídias sociais do mundo. O uso é 53% acima da média global segundo dados da eMarketer. Whatsapp, YouTube, Instagram e Facebook lideram em alcance – cada um utilizado por mais de 80% dos internautas brasileiros . Enquanto TikTok, LinkedIn e outras redes emergentes ganham terreno principalmente entre os mais jovens .
Diante desse panorama, as empresas do setor de eventos e comunicação precisam adaptar suas estratégias de marketing digital às tendências que marcarão 2026. Devem aproveitar oportunidades e evitando armadilhas no relacionamento com suas audiências.
Vídeos curtos dominam – sem matar os conteúdos longos
Uma “era dos vídeos” está em curso nas redes. Em 2026, o formato de vídeo seguirá predominante, dos clipes rápidos de até 1 minuto às produções mais longas de 10, 20 ou 30 minutos.
Plataformas como Instagram e TikTok, impulsionadas pelo sucesso de Reels e vídeos virais, habituaram o público a conteúdos ágeis e envolventes. A linguagem que empresas de eventos têm adotado para promover experiências (teasers de eventos, bastidores em tempo real, depoimentos espontâneos). Ao mesmo tempo, os vídeos longos mantêm relevância: o YouTube, por exemplo, continua com alta audiência (inclusive via TVs conectadas) para conteúdos mais aprofundados. “O formato vertical não morreu.
O YouTube domina em número de usuários e tempo de tela… Para conteúdos longos e de profundidade, o horizontal ainda impera”, observa Rafael Kiso, fundador da mLabs.
Ou seja, marcas e organizadores de eventos devem equilibrar conteúdos curtos (atração rápida) com transmissões longas ou gravações completas de palestras, shows e conferências. E devem atender tanto ao público multitela de atenção rápida quanto à demanda por conteúdo rico e detalhado.
Social commerce e novas formas de vender
Outra tendência forte é a consolidação do social commerce – as redes sociais tornando-se verdadeiros shoppings virtuais. Instagram e TikTok já oferecem experiências de compra integradas e fluidas, e essa movimentação deve se intensificar. Um estudo da Statista prevê que o volume global de vendas via redes sociais atinja US$ 141 bilhões até 2029. No Brasil o setor de eventos e comunicação começa a explorar essas ferramentas das redes sociais para vender serviços diretamente nas plataformas.
TikTok Shop desponta como protagonista em 2026, popularizando o conceito de “mídia comprável”, enquanto o Instagram tende a focar em anúncios inteligentes impulsionados por IA que levem tráfego ao e-commerce da marca.
Para aproveitar essa tendência, especialistas sugerem jornadas de compra com menos atrito – permitindo que o usuário descubra um evento no Instagram e finalize a compra do ingresso em poucos cliques dentro da própria rede.
Empresas que educarem e engajarem o público com conteúdo útil terão mais sucesso em converter seguidores em clientes, quebrando objeções e facilitando decisões de compra nas redes.
Comunidades privadas e engajamento de nicho
Em resposta à impessoalidade dos grandes feeds algorítmicos, usuários migram para microcomunidades online em busca de pertencimento e interação significativa. Atualmente, dois terços dos internautas participam de comunidades virtuais – de grupos fechados no Facebook e Instagram a fóruns no Discord ou WhatsApp.
A Kantar aponta que essas microcomunidades terão força crescente: pessoas cansadas de conteúdo genérico buscam espaços onde possam se engajar em torno de interesses específicos, valorizando autenticidade sobre alcance massivo.
Marcas e organizadores de eventos já percebem essa mudança e fomentam grupos exclusivos para seus públicos – seja um grupo VIP de participantes de uma conferência no Telegram, uma comunidade de fãs de determinado festival ou fóruns de discussão mantidos por agências de comunicação.
A vantagem é criar fidelidade: estudos indicam que integrantes de comunidades tendem a ser mais leais às marcas. Para 2026, a recomendação é investir tempo em cultivar esses espaços, o que estreita o relacionamento e o sentimento de pertencimento do público com a marca.
Influenciadores, creators e liderança de pensamento
No marketing digital atual, criadores de conteúdo e influenciadores tornaram-se peças centrais para amplificar mensagens – e isso não deve mudar. 61% dos profissionais de marketing planejam aumentar investimentos em creators em 2026, de acordo com relatório Marketing Trends 2026 (Kantar). A pressão por demonstrar ROI dessas parcerias, porém, aumentará: ideias alinhadas entre marcas e influenciadores são 2,5 vezes mais relevantes para o sucesso hoje do que há dez anos, mas apenas 27% do conteúdo de creators tem forte ligação com a marca que os patrocina. Ou seja, empresas precisarão escolher bem seus embaixadores e estabelecer colaborações de longo prazo, com diretrizes claras, para garantir autenticidade e resultados.
No setor de eventos, é cada vez mais comum ver microinfluenciadores de nicho promovendo feiras e festivais, bem como executivos atuando como porta-vozes digitais. “Veremos a ascensão do thought leadership: refiro-me ao influenciador do próprio negócio – CEOs e fundadores assumindo o protagonismo da comunicação para reduzir o CAC e fortalecer a marca” aponta Rafael Kiso. Redes profissionais como o LinkedIn têm sido palco dessa estratégia, com líderes compartilhando insights e humanizando a comunicação corporativa.

Até mesmo em setores B2B tradicionais, há espaço para criatividade. Já se nota um tom mais leve e bem-humorado em conteúdos de empresas nos novos canais – reconhecendo que o público busca conexão e entretenimento mesmo em contextos profissionais.
Em 2026, saber equilibrar autoridade e proximidade será chave: as marcas de eventos e comunicação que derem voz às pessoas por trás dos negócios e co-criarem conteúdo com influenciadores tendem a ganhar relevância e confiança do público.
Tecnologia, IA e o resgate da autenticidade
A Inteligência Artificial (IA) já permeia o marketing e 48% dos líderes empresariais planejam investir ainda mais em ferramentas de IA. Em 2026, veremos a IA generativa atuando como cocriadora de peças publicitárias e posts, otimizando campanhas com personalização hipersegmentada. Contudo, cresce em paralelo um movimento de resistência e busca por autenticidade. “Quando a IA se tornar a linguagem que todos falamos, garantir que as marcas ainda criem conexões humanas autênticas e de confiança será fundamental”, ressalta Milton Souza, CEO da Kantar Brasil. De fato, com a abundância de conteúdo sintético gerado por IA, o valor da origem confiável e humana tende a subir.
Marcas que simplesmente inundarem as redes com textos e vídeos pasteurizados por inteligência artificial correm o risco de fadiga de audiência. Por outro lado, aquelas que usarem a tecnologia para potencializar o toque humano devem se destacar. Especialistas apontam que em 2026 “o real será destacado” nas timelines: conteúdos com voz autêntica ganharão a preferência dos algoritmos e dos usuários.
Para as empresas de comunicação, vale reforçar a curadoria e qualidade editorial, enquanto produtores de eventos podem equilibrar novidades high-tech com experiências presenciais mantendo a conexão humana no centro da estratégia.
Métricas, ROI e atendimento ágil nas redes
Com orçamentos mais apertados e maturidade digital crescente, 2026 será o ano da cultura data-driven no marketing de mídias sociais. Segundo o Sprout Social Index 2025, 65% dos gestores de marketing afirmam que provar como as ações nas redes contribuem para objetivos de negócio é crucial para assegurar investimentos, e 52% admitem precisar quantificar melhor as economias geradas por essas estratégias. Ou seja, os esforços em redes sociais serão cada vez mais ligados a indicadores tangíveis – do alcance e engajamento até leads, vendas ou fidelização.
Empresas de eventos e agências de comunicação estão adotando ferramentas integradas de análise, conectando dados do Instagram, LinkedIn ou YouTube com CRM e plataformas de vendas para mapear a jornada do cliente completo.
Essa mensuração mais rigorosa também ajuda a otimizar campanhas em tempo real (realocando verba para o que dá resultado) e a justificar o ROI de ações inovadoras, como contratar um influenciador.
Outra prioridade é aprimorar o atendimento ao cliente via redes sociais. Cerca de 73% dos usuários dizem que, se não forem respondidos nas redes, procurarão um concorrente, e quase 75% esperam retorno em até 24 horas.
No Brasil, onde WhatsApp e Instagram são canais-chave de contato, isso significa que organizadores de eventos precisam ter equipes atentas às caixas de entrada, prontas para esclarecer desde detalhes de ingressos até orientações no dia do evento. Da mesma forma, agências de comunicação que gerenciam marcas devem monitorar menções e mensagens para evitar crises e aproveitar oportunidades de interação.
Em 2026, excelência no suporte online será parte indissociável da reputação: nem mesmo o post mais criativo compensa uma falha de atendimento público. Marcas que oferecerem atendimento personalizado e ágil nas redes saem na frente na conquista e retenção de clientes.
A cultura do instante
As redes sociais evoluem sem cessar, incorporando novos recursos e tendências culturais. Em 2025, surgiram novas plataformas que conquistaram milhões de usuários rapidamente – caso do Threads, da rede Bluesky ou do Lemon8. Para 2026, especialistas recomendam às marcas ousar experimentar nesses ambientes e formatos emergentes. “As redes sociais são um campo fértil para inovar e testar a aderência do público a um novo conteúdo”, aponta análise da OUTMarketing. Isso vale inclusive para empresas B2B ou tradicionais, que podem inserir humor e humanização onde menos se espera, quebrando padrões para se destacar. A chamada “disrupção criativa” – ousar sair do roteiro estritamente institucional – pode render engajamento surpreendente.
Ao mesmo tempo, vivemos na era do tempo real. Grandes acontecimentos culturais, shows e eventos esportivos geram conversas instantâneas nas redes, e as marcas que aproveitam esses momentos ganham visibilidade. Eventos ao vivo continuarão sendo motores de audiência e conversação social, exigindo das marcas agilidade para participar da cultura em tempo real. O ano de 2026 trará oportunidades como a Copa do Mundo FIFA, além de festivais e premiações, nas quais o marketing em tempo real – posts, memes ou ofertas reagindo imediatamente ao que está acontecendo – pode replicar o sucesso dos tempos áureos do Twitter.
Empresas de eventos já exploram isso promovendo hashtags oficiais e transmissões ao vivo interativas, enquanto agências monitoram trending topics para inserir seus clientes nas pautas do momento. Porém, a velocidade não deve sacrificar a estratégia: “O desafio da comunicação contemporânea é recuperar a coragem de pensar mais, respeitando as especificidades de cada mídia. E, nos eventos institucionais, a inteligência criativa continua sendo fundamental”, alerta Felipe Macedo, CXO da agência Alternativa F. Em outras palavras, inovar e ser rápido é importante, mas sem abrir mão da profundidade e do propósito de cada ação.
Agilidade com propósito: o equilíbrio para 2026
Em resumo, as principais redes sociais – de Instagram, TikTok, LinkedIn, Facebook, YouTube às plataformas emergentes – impõem em 2026 uma dinâmica de transformação constante no marketing. No Brasil, onde a população está altamente conectada e engajada, as empresas de eventos e comunicação terão de reinventar formas de atrair a atenção.
A receita inclui abraçar novos formatos de conteúdo, explorar novas ferramentas de venda e comunidade, e adotar a inteligência artificial com inteligência humana. Mas inclui também dosar a inovação com estratégia e autenticidade: os cases de sucesso virão de marcas que conseguem ser rápidas sem ser rasas.
Como observou Felipe Macedo, muitos eventos recentes pecaram pelo excesso de simplicidade “copiado” das redes, abrindo mão de diferenciação. Aprendendo com isso, 2026 tende a marcar um retorno à união de criatividade e planejamento estratégico nos eventos, apoiada pelas lições das redes sociais. A busca é por campanhas e experiências que eduquem, entretêm e engajem o público – seja na tela do celular ou cara a cara, no mundo real – construindo relações de valor duradouras em meio a tantas mudanças tecnológicas.


