Carnaval muito louco e o efeito quarta-feira de Cinzas

Se é verdade que o ser humano nunca está satisfeito, também é verdade que é resiliente, costuma se reerguer após os tombos, reinventar-se e seguir em frente.

Quando os pais de Elzo e de Jayma arranjaram o casamento, ela não imaginava que ele fosse um nerd viciado em aplicativos, com nariz avantajado que identifica cheiros a distância e orelhas de abano que lhe renderam o apelido Dumbo. Mas isso não a incomoda, pois Elzo é milionário, porém sonhador, cabeça dura e metido a inventor. Se põe uma ideia na cabeça, vai até o fim, mesmo que as evidências indiquem fracasso. Há anos desenvolve um algoritmo para identificar o par perfeito.

Jayma quer que o rico esposo se revele um garanhão, sonho que se esvai quando o vê treinando gargarejo de bruços, “esporte” no qual tenta ser tricampeão. Quando os avós cobram netos, ele pede paciência. Primeiro o algoritmo, depois o filho.

Não fosse pelo dinheiro, que satisfaz todos os desejos não amorosos, já o teria abandonado. Jayma soube de um Swing de luxo, com troca de casais entre milionários. Levou Elzo, pensando em trocá-lo por outro ricaço, mas após o evento, todos voltam para casa com o mesmo cônjuge.

Os pais de Elzo, com idade avançada, deram um xeque-mate. Exigiram que o filho lhes dê um neto, sob pena de deserdá-lo. Jayma convenceu o marido a irem a Veneza, imaginando que o Baile de Máscaras do famoso Carnaval poderá animá-lo.

Para apimentar as coisas, irão ao baile sem que um saiba qual é a fantasia do outro. Tentarão flertar com alguém para fazer cena de ciúme e aumentar o desejo quando retornarem ao hotel. Enquanto o marido cochilava, Jayma vestiu a fantasia e pegou o barco taxi rumo ao Baile de Máscaras. Elzo, que nunca bebe álcool, vestiu-se, tomou umas doses de whisky para criar coragem e saiu.

Sem palavras, apenas com gestos e olhares, ele conquistou uma linda Colombina. O whisky fez efeito e o nariz identificou o perfume. Entraram num cômodo reservado e transaram, sem tirar as máscaras e sem conversar. Depois voltaram ao baile e se afastaram.

Quando Elzo retornou ao hotel, Jayma dormia. Ao se desfazer da fantasia, notou no lixo do hotel, o traje da Colombina que o atraiu. Dormiram até a hora do almoço, passearam pela cidade, no dia seguinte foram a Paris e retornaram ao Brasil sem trocar qualquer palavra sobre o Baile.

Pouco tempo depois, Jayma descobriu-se grávida. O rebento veio ao mundo em dezembro, olhinhos como os da mãe, mas pele mourisca, diferente do pai ruivo. A alegria era tamanha que ninguém reparou. Com o tempo, pele, olhos e cabelos mudam, pensou, mas quando Elzo Júnior completou 4 meses, o nariz aquilino e orelhas pontiagudas tipo Doutor Spock dispensavam exame de DNA para saber que o filho não é dele.

Jayma, vestida de Vênus Lasciva, nem foi ao baile. Transou com um árabe no barco taxi e queimou a fantasia. Elzo foi de Pierrot e se entregou à Colombina que usava o mesmo perfume da esposa. Não foi o nariz que o enganou, mas a falta de tato. Porém, criam Elzo Jr. como se fosse realmente deles.

Meses mais tarde, uma atriz pornô asiática à caça de fortunas acionou Elzo na Justiça em processo de investigação de paternidade. Como prova, enviou fotos feitas às escondidas. Todos os meses Elzo manda dinheiro para a mãe e a japinha ruiva que nunca verá. Na falta de um filho, agora sustenta dois. Não sabe quem é o pai do Júnior, nem conhece a mãe ou a japinha que sustenta. Mas é um eterno otimista, resiliente e trabalha com afinco no algoritmo. Um dia conhecerá seu par perfeito.

No Carnaval, ninguém é de ninguém. Se for a um baile de máscaras, não beba! 

Laerte Temple
Laerte Temple
Administrador, advogado, mestre, doutor, professor universitário. Autor de Humor na Quarentena (Kindle) e Todos a Bordo (Kindle). Crônicas de humor toda sexta-feira, às 10h.

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