O Brasil gosta de repetir para si mesmo que vive numa democracia vibrante, mas a linha do tempo republicana conta outra história. Em 136 anos, algo em torno de 120 foram governados por presidentes de direita ou centro-direita, enquanto projetos minimamente progressistas ocuparam o Planalto por pouco mais de 16 anos, quase sempre sob cerco. Essa desproporção não é acidente estatístico, é sintoma de quem realmente segura as rédeas do poder desde 1889: uma aliança mutante de oligarquias econômicas, cúpulas militares e aparelhos institucionais que se reciclam a cada geração, mas preservam a mesma hierarquia social.
A República nasce velha. A cena de 1889 não é o povo tomando o poder, mas a velha ordem escravocrata trocando de roupa. Nos 41 anos da chamada República Velha, a política do café com leite transformou o Estado em extensão das fazendas de São Paulo e Minas. Coronéis controlavam o voto pelo medo, pela fome, pelo emprego, por ameaças veladas e violências explícitas. A urna era apenas um rito, nunca uma escolha. Com o voto não secreto, quem ousasse contrariar o “patrão” arriscava o trabalho, a terra, a vida. O país aprendia cedo que a democracia, aqui, sempre viria com asterisco.
Quando Vargas chega ao poder em 1930, rompe-se a hegemonia dos coronéis, mas não a lógica de tutela. O Estado Novo centraliza, concede direitos trabalhistas, estrutura o sindicalismo, e ao mesmo tempo sufoca liberdades em nome de um projeto desenvolvimentista. O povo é convocado como massa, não como sujeito. A fase que se segue, entre o fim da ditadura varguista e o golpe militar de 1964, costuma ser contada como um respiro democrático. Na prática, é um período em que a elite admite alternância controlada, desde que ninguém mexa nos nervos expostos da estrutura de poder. O suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, as sucessivas crises de governo anunciam o que virá: qualquer presidente que tente avançar sobre privilégios históricos será tratado como excedente descartável.
É nesse contexto que João Goulart se torna símbolo de um padrão que se repetirá. Jango, herdeiro do trabalhismo de Vargas, ousa propor reformas de base, reforma agrária, regulação do capital estrangeiro, fortalecimento de direitos sociais. Não era uma revolução socialista, mas já era demais para os donos de terra, para o capital internacional, para o espírito de caserna ainda impregnado de anticomunismo de manual. O resultado é conhecido: o golpe de 1964, tanques nas ruas, um presidente deposto sem consulta ao povo, e o início de 21 anos de ditadura militar. A mensagem é clara: se um governo legitimamente eleito ousar enfrentar a desigualdade estrutural, a reação não será apenas eleitoral, será de força.
A ditadura constrói um laboratório perfeito de controle. Sem voto real, cinco generais se revezam na presidência, o AI-5 suspende direitos civis, o Congresso se transforma em cenário, a tortura vira política de Estado. Quando a transição chega, nos anos 1980, ela não desmonta o edifício de privilégios, apenas o redecora. O primeiro presidente civil pós-regime, José Sarney, é produto direto do partido que sustentou os militares. A promessa de “nova república” nasce, assim, sob a sombra de uma conciliação em que o passado autoritário não é realmente julgado nem responsabilizado. Mais uma vez, a elite escolhe ceder na superfície para manter o essencial.
Na década de 1990, Collor e depois Fernando Henrique Cardoso encarnam o ciclo liberal, privatizações em série, Estado enxuto para os pobres e generoso para o mercado. Itamar Franco, no meio desse percurso, é uma espécie de intervalo curioso: um governo que estabiliza a moeda, mantém certa distância das privatizações mais agressivas, não se encaixa facilmente nem na esquerda nem na direita clássica. Ainda assim, seu mandato não desorganiza as bases do poder econômico nem confronta frontalmente os interesses dos grupos que historicamente comandam o país. É uma pausa, não uma ruptura.
A verdadeira ruptura simbólica vem com Lula. Um operário nordestino, sem diploma universitário, que conhece na pele o chão que a elite sempre evitou pisar, chega à presidência pelo voto popular. Nos seus dois primeiros mandatos, combinando estabilidade macroeconômica com políticas de inclusão, o país reduz a pobreza extrema, expande universidades, fortalece programas de transferência de renda. Dilma Rousseff aprofunda parte desse caminho, com investimentos sociais e infraestrutura, ainda que sob crescente conflito fiscal e político. É justamente aí que a velha engrenagem entra em modo de autodefesa. A reação é feroz, barulhenta, multifacetada.
Todos os governos minimamente progressistas no Brasil enfrentam esse mesmo padrão de resistência avassaladora da direita. João Goulart é derrubado por tanques. Dilma Rousseff é afastada por um Congresso majoritariamente conservador, ancorado em um processo de impeachment juridicamente controverso, cuja base real está muito mais na disputa política do que em um crime de responsabilidade incontestável. No meio do caminho, a operação judicial que prende e interdita Lula politicamente, depois anulada, mostra outro rosto dessa mesma guerra: quando o voto ameaça alterar a correlação de forças, a resposta não vem apenas pelas urnas, mas por golpes clássicos ou por golpes revestidos de legalidade.
A chave está em perceber que o conflito central não é entre esquerda e direita em abstrato, mas entre democracia substantiva e autodefesa de privilégios. A cada vez que um governo ensaia tocar nos dogmas da concentração de renda, da terra intocada, das isenções generosas ao topo ou da impunidade das elites, uma coalizão difusa se forma. Ruralistas que controlam extensões continentais de terra, barões da mídia, frações do sistema financeiro, segmentos do Judiciário, alta oficialidade militar: todos convergem em torno de um objetivo comum, impedir que a vontade popular se traduza em transformação estrutural. As máscaras mudam, o discurso muda, os instrumentos mudam, o núcleo permanece.
No presente, a urna eletrônica simboliza esse embate. Ao garantir voto secreto, rápido, acessível, ela retira do jogo boa parte das velhas ferramentas de controle direto, da ameaça no portão da fazenda ao chefe político da cidade pequena. Pela primeira vez, a mulher da periferia, o trabalhador informal, o jovem negro da favela podem votar sem que um coronel moderno lhes veja a escolha. Não por acaso, é nesse cenário que projetos progressistas conseguem chegar ao poder, e exatamente por isso a urna se torna alvo de teorias conspiratórias, campanhas de descrédito, pressões por retrocessos no sistema de votação. O medo não é da tecnologia, é do povo que ela emancipou.
Quem realmente governa o Brasil, portanto, não se resume ao nome gravado na faixa presidencial. O poder está na teia que sobreviveu a monarquia, República Velha, Estado Novo, ditadura militar, redemocratização e ciclos eleitorais. Está na capacidade de vetar, de pressionar, de destituir, de criminalizar, de transformar qualquer governo progressista em um corpo estranho a ser expelido. Enquanto João Goulart for lembrado como “excesso reformista” e Dilma como “presidente impopular” e não como exemplos de resistência organizada a mandatos legítimos, a narrativa continuará servindo a quem sempre mandou. O desafio brasileiro é romper esse encanto, enxergar que a disputa não é apenas por quem vence a eleição, mas por quem aceita, de fato, que o povo governe. E essa é justamente a fronteira que as elites nacionais, desde 1889, se recusam a cruzar.


