Em 1939, às vésperas da maior catástrofe do século XX, um homem desarmado decidiu escrever para o líder mais violento de seu tempo. A carta começava com “Querido Amigo”. Não era ironia. Era método.
“Amigos têm insistido que eu lhe escreva para o bem da humanidade…”, dizia o texto assinado por Mohandas K. Gandhi, enviado da Índia britânica para a chancelaria alemã em Berlim. O tom era educado, quase constrangido. Gandhi pedia desculpas por ousar escrever, reconhecia o poder concentrado nas mãos do destinatário e apelava para algo raro em tempos de guerra: responsabilidade moral individual. A carta foi escrita em julho de 1939 e reenviada em dezembro de 1940, quando a guerra já devastava a Europa. Nenhuma resposta chegou.
O episódio costuma ser tratado como curiosidade histórica, mas ele revela algo mais incômodo. Gandhi sabia exatamente com quem falava. Não havia ingenuidade. Havia uma aposta radical na ideia de que até o pior dos homens ainda responde à linguagem da civilidade. A carta não buscava convencer pelo medo, nem pela ameaça, nem pela força. Apostava no constrangimento ético.
O século XX respondeu com silêncio e bombas. Ainda assim, a carta permaneceu. Ela atravessou arquivos, guerras e décadas para chegar ao nosso tempo, em que a brutalidade raramente se esconde. Hoje, líderes não precisam fingir normalidade para propagar violência. Ela circula em discursos públicos, redes sociais e palanques, sem pedido de desculpas prévio.
A comparação é desconfortável. Gandhi escrevia quando ainda existia a expectativa de que o poder precisasse se justificar moralmente. Mesmo regimes autoritários mantinham a fachada de civilidade. No mundo atual, a grosseria virou capital político. O ataque direto rende engajamento. A desumanização virou linguagem cotidiana.
Pesquisas recentes ajudam a entender esse deslocamento. Levantamentos do Digital News Report, realizados entre 2019 e 2023 em países da América Latina, mostram crescimento consistente da desconfiança em instituições e da aceitação de discursos agressivos como forma legítima de liderança. No mesmo período, estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontaram aumento da tolerância social à violência verbal e simbólica na política. A civilidade deixou de ser valor e passou a ser vista como fraqueza.
A carta de Gandhi expõe esse contraste. Ela não fracassa porque não obteve resposta. Ela incomoda porque mostra o quanto nos afastamos da ideia de que palavras podem conter o pior impulso humano. Não se trata de romantizar a não violência nem de sugerir que a educação do algoz seja suficiente. Trata-se de reconhecer que, quando a brutalidade deixa de precisar de disfarce, algo mais profundo já se rompeu.
Gandhi escreveu sabendo que talvez fosse inútil. Ainda assim, escreveu. Hoje, muitas vezes, nem tentamos. Preferimos o escárnio, o cancelamento imediato, a guerra verbal permanente. A carta lembra que houve um tempo em que se acreditava que apelar à consciência era obrigação, mesmo quando a chance de sucesso era mínima.
No fim, aquele “Querido Amigo” não era dirigido apenas ao destinatário original. Era um recado para o futuro. Uma pergunta silenciosa sobre até que ponto estamos dispostos a abrir mão da linguagem humana quando enfrentamos o inaceitável.


