A decisão da Justiça Federal que proibiu um vereador de invadir unidades de saúde, filmar e humilhar profissionais sob multa de R$ 50 mil por infração expõe o abismo entre o mandato eletivo e o espetáculo populista, um padrão que contamina não só hospitais, mas escolas, universidades e qualquer repartição pública suscetível a likes virais. No caso de Gabriel Monteiro, julgado pela 6ª Vara Federal do Rio em 2022 a pedido do Cremério, o juiz Marcelo Barbi Gonçalves vedou gravações sem consentimento, presença armada e exploração midiática da dor alheia, reafirmando que fiscalização séria ocorre via requerimentos institucionais, não arrombamentos solitários. Vereadores carecem de salvo-conduto constitucional para tais invasões, pois a imunidade material do art. 53 da CF/88, replicada nos arts. 27 e 29, VIII para estaduais e municipais, resguarda opiniões e votos no exercício formal do mandato, excluindo atos dolosos como humilhações ou filmagens abusivas, conforme o STF delimita em julgados que repelem desvios de finalidade.
Essa conduta agrava-se ao instrumentalizar o sofrimento humano como moeda eleitoral, transformando pacientes em UPAs, professores em salas de aula ou servidores em balcões de atendimento em meros figurantes de narrativas inflamadas, o que corrói a confiança pública e perpetua a ineficácia crônica dos serviços essenciais. Juridicamente, precedentes como a proibição ao vereador Kleberton Feitoza em Várzea Grande-MT, em 2025, pela Justiça Federal atendendo ao CRM local após invasão a consultório, ou em Morrinhos-GO contra interferências em atendimentos, consolidam que o acesso irrestrito viola a separação de poderes e a dignidade do trabalho público. Fora do Direito, essa prática evoca a “política do pão e circo” de Roma antiga, satirizada por Juvenal em “Panem et circenses”, onde a plebe trocava soberania por migalhas e espetáculos, abdicando da vigilância política em prol de distrações efêmeras; no Brasil contemporâneo, redes sociais substituem o Coliseu, e o “circo” das invasões filma o desespero alheio para colher votos, fomentando populismo que culpabiliza elites ou “sistema” sem propor reformas estruturais.
Explorar a dor como combustível ideológico não resolve mazelas sociais, mas as eterniza, pois prioriza o viral ao visível, o like à lei, distraindo o eleitor de demandas reais como investimentos perenes em saúde e educação. Tal mercantilização do humano, comum em discursos populistas de esquerda ou direita que inflamam medos e ressentimentos via algoritmos, mina a deliberação democrática e perpetua ciclos de miséria e descrédito, como visto em análises de campanhas que trocam políticas públicas por encenações teatrais. Em Várzea Grande ou no Rio, o padrão se repete: sem o palco da humilhação, revela-se a fragilidade do oportunismo.
Que o mandato retorne à essência nobre de legislar pelo bem comum, fiscalizando com respeito e substância, não com o voyeurismo que degrada vítimas e verdugos; só assim, rompendo o ciclo do circo romano atualizado, o povo reconquista não migalhas de pão ou likes vazios, mas soberania verdadeira e serviços públicos dignos.


