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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Dica de Leitura: “Vozes de Tchernóbil” de Svetlana Alexievitch: o eco silenciado da catástrofe humana

O livro Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Alexievitch, laureada com o Nobel de Literatura em 2015, emerge como um testemunho polifônico do pior desastre nuclear da história, ocorrido em 26 de abril de 1986 na Ucrânia soviética. Pela boca de bombeiros, liquidadores, viúvas, cientistas e camponeses, a autora reconstrói não apenas a explosão do reator número 4, mas o colapso de um sistema que sacrificou vidas em nome da ideologia e do segredo estatal. Essa obra, dividida em monólogos crus e coros coletivos, transcende o factual para revelar a dor íntima de um povo exposto à radiação invisível e à negação oficial.​

Alexievitch, com maestria jornalística, abdica da narrativa autoritária e deixa as vozes falarem, expondo o heroísmo cego dos “liquidadores”, jovens de 33 anos em média enviados sem proteção para conter o átomo com pás e determinação patriótica. Mulheres como Liudmila Ignatienko relatam o horror de ver maridos se decompor vivos, mucosas caindo em camadas, enquanto grávidas perdem filhos com cirrose hepática congênita após poucas horas de vida. Crianças e aldeões, estigmatizados como “de Tchernóbil”, enfrentam rejeição social, medo da chuva radioativa e um futuro de cemitérios precoces, onde de cada dez pessoas sete adoecem nas zonas contaminadas.​

A catástrofe não explode apenas no reator, mas na mentalidade soviética que prioriza o coletivo sobre o indivíduo, omitindo informações para evitar pânico e permitindo desfiles no Dia do Trabalhador em Kiev sob nuvens tóxicas. O governo, em delírio burocrático, evacua 335 mil pessoas tardiamente, espalhando partículas que alcançam desde a Polônia até o Japão, enquanto 800 mil soldados são mobilizados em segredo. Alexievitch denuncia essa fusão de incompetência técnica, corrupção e fanatismo ideológico, que acelera o fim da URSS e questiona o “homem soviético” disposto a morrer pela pátria sem questionar.​

Em tempos de debates sobre energia nuclear e riscos ambientais, Vozes de Tchernóbil ressoa como alerta profético contra a arrogância tecnológica e o autoritarismo que silencia vítimas. No Brasil, ecoa em tragédias como Mariana e Brumadhinha, onde negligência estatal e corporativa devasta comunidades sem dar voz aos afetados. A lição central permanece: a radiação não discrimina, mas a memória coletiva, quando preservada por vozes como as de Alexievitch, pode impedir repetições. Esse livro não é mera crônica histórica, mas um monumento à coragem humana perante o indizível, exigindo que reflitamos sobre o preço da modernidade cega.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

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