19 C
São Paulo
sábado, 24 de janeiro de 2026

Dica de Leitura: “República do Mangue – Controle Policial e Prostituição no Rio de Janeiro (1954-1974)”, de Juçara Luzia Leite – o controle estatal sobre corpos marginalizados

O livro “República do Mangue: Controle Policial e Prostituição no Rio de Janeiro (1954-1974)”, de Juçara Luzia Leite, revela como o Estado brasileiro, por meio da polícia e de instituições médicas, construiu uma zona de prostituição regulamentada no centro do Rio, transformando o Mangue em um laboratório de poder e disciplina social. Essa “república” não era uma autonomia feminina, mas um regime de vigilância que fichava prostitutas, impunha exames médicos periódicos na Fundação Gaffrée e Guinle e elegia gerentes sob supervisão do 13º Distrito Policial, sob o pretexto de higiene e ordem urbana. Leite, analisando fichas policiais, expõe as negociações cotidianas entre mulheres, policiais e clientes, onde o “mal necessário” da prostituição era contido para preservar a moral da nação.​

A criação da República do Mangue, nos anos 1950, surgiu como resposta à desordem pós-Avenida Presidente Vargas, que demoliu cortiços e concentrou o baixo meretrício em ruas como Julio do Carmo e Benedito Hipólito. Prostitutas, muitas migrantes analfabetas de origem doméstica, eram recrutadas pela Delegacia de Costumes e fichadas em modelos “azul”, “amarelo” ou “branco”, com históricos que narravam deflorações, abandonos e fugas, justificando sua entrada na zona como alternativa de sobrevivência. A polícia atuava com paternalismo seletivo: suspendia por brigas internas, expulsava doentes ou “bagunceiras”, mas permitia retornos mediante submissão, negociando espaços físicos, morais e afetivos em um equilíbrio precário entre proibição, regulamentarismo e abolicionismo.

Essa estrutura exemplifica a hipocrisia estatal, que modernizava a cidade carioca como vitrine nacional enquanto segregava mulheres em bordéis “higienizados”, substituindo vitrines de calçada por paredes vigiadas. Leite destaca resistências sutis, como eleições rotativas de zeladoras e gerentes alfabetizadas, mas sublinha a violência inerente: agressões entre prostitutas por clientes ou objetos, roubos a fregueses e punições por “meretrício volante” na Cinelândia. Tal controle, alinhado a convenções da ONU contra discriminação, mascarava exploração, pois cafetinas foram expulsas apenas para que a polícia assumisse o papel de proxeneta indireta.

Em uma sociedade que ainda romantiza o Rio como síntese brasileira, o livro de Leite soa como alerta atual contra políticas que, sob nome de ordem, perpetuam desigualdades de gênero e classe. A dissolução da república em 1974, com a fusão Guanabara-Rio, não apagou suas lições: o Mangue persiste como metáfora de como o poder negocia a marginalidade para se legitimar. Ler Juçara Luzia Leite é confrontar o Brasil com suas sombras urbanas, onde a prostituição, longe de ser erradicada, foi domesticada para servir à ilusão de progresso.

Manuel Flavio Saiol Pacheco
Manuel Flavio Saiol Pacheco
Doutorando e Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Mestre em Justiça e Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Especialista em Desenvolvimento Territorial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).. Possui ainda especializações em Direito Tributário, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Docência Jurídica, Docência de Antropologia, Sociologia Política, Ciência Política, Teologia e Cultura e Gestão Pública e Projetos. Graduado em Direito pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Advogado, Presidente da Comissão de Segurança Pública da 14º Subseção da OAB/RJ, Servidor Público.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Imagem em Destaque

Leia mais

Patrocínio

Genebra Seguros
Bristol