O livro “República do Mangue: Controle Policial e Prostituição no Rio de Janeiro (1954-1974)”, de Juçara Luzia Leite, revela como o Estado brasileiro, por meio da polícia e de instituições médicas, construiu uma zona de prostituição regulamentada no centro do Rio, transformando o Mangue em um laboratório de poder e disciplina social. Essa “república” não era uma autonomia feminina, mas um regime de vigilância que fichava prostitutas, impunha exames médicos periódicos na Fundação Gaffrée e Guinle e elegia gerentes sob supervisão do 13º Distrito Policial, sob o pretexto de higiene e ordem urbana. Leite, analisando fichas policiais, expõe as negociações cotidianas entre mulheres, policiais e clientes, onde o “mal necessário” da prostituição era contido para preservar a moral da nação.
A criação da República do Mangue, nos anos 1950, surgiu como resposta à desordem pós-Avenida Presidente Vargas, que demoliu cortiços e concentrou o baixo meretrício em ruas como Julio do Carmo e Benedito Hipólito. Prostitutas, muitas migrantes analfabetas de origem doméstica, eram recrutadas pela Delegacia de Costumes e fichadas em modelos “azul”, “amarelo” ou “branco”, com históricos que narravam deflorações, abandonos e fugas, justificando sua entrada na zona como alternativa de sobrevivência. A polícia atuava com paternalismo seletivo: suspendia por brigas internas, expulsava doentes ou “bagunceiras”, mas permitia retornos mediante submissão, negociando espaços físicos, morais e afetivos em um equilíbrio precário entre proibição, regulamentarismo e abolicionismo.
Essa estrutura exemplifica a hipocrisia estatal, que modernizava a cidade carioca como vitrine nacional enquanto segregava mulheres em bordéis “higienizados”, substituindo vitrines de calçada por paredes vigiadas. Leite destaca resistências sutis, como eleições rotativas de zeladoras e gerentes alfabetizadas, mas sublinha a violência inerente: agressões entre prostitutas por clientes ou objetos, roubos a fregueses e punições por “meretrício volante” na Cinelândia. Tal controle, alinhado a convenções da ONU contra discriminação, mascarava exploração, pois cafetinas foram expulsas apenas para que a polícia assumisse o papel de proxeneta indireta.
Em uma sociedade que ainda romantiza o Rio como síntese brasileira, o livro de Leite soa como alerta atual contra políticas que, sob nome de ordem, perpetuam desigualdades de gênero e classe. A dissolução da república em 1974, com a fusão Guanabara-Rio, não apagou suas lições: o Mangue persiste como metáfora de como o poder negocia a marginalidade para se legitimar. Ler Juçara Luzia Leite é confrontar o Brasil com suas sombras urbanas, onde a prostituição, longe de ser erradicada, foi domesticada para servir à ilusão de progresso.

